visões da natureza e do mundo

visões da natureza e do mundo
Euler Sandeville Jr.
Versão inicial 07/01/2016. Ampla revisão definindo um novo texto: 14/02/2017. Atualização: 15/06/2017.

para citar este artigo:
SANDEVILLE JR., Euler. “Visões da natureza e do mundo”. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 15 de junho de 2017.

Simulação do cosmo em bilhões de anos (Künstlicher Kosmos emuliert Milliarden Jahre im Zeitraffer Simulation des Universums Künstlicher Kosmos emuliert Milliarden Jahre im Zeitraffer, Video: Nature Video, Foto: Illustris Collaboration). Imagem capturada da página de apresentação do vídeo. Fonte: sueddeutsche.de/wissen/simulation-des-kosmos-forscher-erschaffen-digitales-universum-1.1953657 Acesso em 30/01/2016

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro menciona que Nélson Gonçalves teria dito a nosso respeito: “O ser humano, tal como o imaginamos, não existe” [1]. Já Clement Rosset [2], com certo pessimismo e impaciência intelectual procura nos demonstrar que a natureza não é um conceito, mas um desejo: o desejo de uma ordem na total ausência de finalidade do acaso. E Lenoble [3], tratando da história da ideia de natureza, nos diz que o homem sempre observou a natureza, só que não era a mesma.

Há, no ceticismo e no relativismo contemporâneo extremado (no que não poderíamos incluir Lenoble acima citado), no mínimo, uma profunda desconfiança do que somos, das nossas tradições de conhecimento, enraizando tenazmente a existência na materialidade. Nessa construção do olhar intelectual para o mundo e para si, vamos sendo definidos, no limite, por uma ausência (a de sentido transcendente, a de propósito) sob a tecitura ruidosa do presente. Nem sempre se entendeu o mundo assim.

Não devemos nos aborrecer nem felicitar-nos com a ausência que permeia nossas representações e significações, e sim problematizar essa condição contemporânea em que existimos e na qual essa condição se constrói. É essa nossa forma peculiar (ou uma delas) de definirmos o mundo em que existimos, o qual temos de compreender estando imersos nele. Desafio para o qual muito pode nos ajudar o contemplar, em sua temporalidade própria e peculiaridade, as formas de entender e representar de outros tempos.

Não podemos apreender o presente só pelo presente, nem apenas pelo olhar do presente sobre o passado. É necessário que esse olhar perscrute o quanto possível o sentido próprio desses outros tempos (no sentido antropológico), enunciando seu texto o quanto possível e não apenas o nosso, suas categorias de entendimento e representação do mundo e não apenas as nossas, tão explicativas a partir do que já sabemos ou pensamos saber.

Digo isso não para abrir mão de nossa condição, mas para que façamos o fascinante exercício de nos vermos como seríamos vistos por aqueles do passado, em suas próprias razões e não nas nossas, a quem observamos enraizados no presente. Há uma certa tendência em nos valermos de narrar o passado como um espelho de um suposto avanço de nossos saberes, mas ao fazê-lo, de certa forma lhe atribuímos a nossa própria voz, de modo imperativo e normativo. O fazemos, ao mesmo tempo que não nos permitimos a imaginação inquietante de ouvir como esses tempos que se foram nos veriam a partir de suas próprias categorias e certezas, se lhes fosse possível tal inversão de quem é olhado para quem olha, de quem é perscrutado para quem perscruta.

Há ainda outro lado nessa ausência que permeia o “ser humano” contemporâneo. Nas generalizações da linguagem (natureza, sociedade, cultura, homem, mundo), necessárias à nossa comunicação, em parte nos escapam os sonhos e acontecimentos que nos definem como presente em contínua efervescência (e evanescência). Ou, talvez, apenas não existam exatamente como os pensamos, tensionados por nossas imensas contradições.

Os grandes conceitos são invenções que, ainda quando tenham sido formulados a partir do real e da experiência, deles se afastam. Invenções necessárias sem dúvida à nossa comunicação e entendimento, a partir de realidades que não apenas observamos, mas nas quais existimos e nos definimos, e diante das quais construímos sentidos, valores e significados. É necessária uma consciência do momento em que habitamos a existência (o mundo em construção), que torna esse relativismo atual tão explicativo de nós mesmos.

Fiz estas considerações iniciais para indicar que este estudo refere-se, portanto, a algo que não existe tal como habitualmente observamos, mas no qual existimos: a natureza e suas poéticas (que são as nossas e os dos que nos antecederam), seus significados (os nossos e os dos que nos antecederam), suas (da natureza) e nossas possibilidades, nossas contradições e heranças, os medos, mistérios e esperanças nas fronteiras da compreensão e da existência, os valores, os espaços e o trabalho de gerações no âmbito das quais existimos e partilhamos nossa breve e intensa vida.

Natureza e tempo não se separam. Muito menos natureza e mundo. Pensar a natureza é pensar o mundo, assim o propomos para esta investigação, e pensar o mundo é pensar também os artefatos e processos humanos e sociais do espaço habitado na transformação do mundo (o mundo se apresenta em sua transformação, mesmo quando fugidia aos tempos de nossa experiência e percepção). O que está em causa (neste trabalho), portanto, é o Mundo, não a totalidade inatingível do ecúmeno, mas a compreensão que do Mundo, a cada momento e lugar, vamos construindo (na dimensão do ser histórico).

O que estabelece a noção de natureza para este trabalho não é tanto o senso comum de que seja uma existência independente e anterior ao trabalho-criação humana. É mais o fato de que a Natureza convida a um posicionamento e a uma poética (ou várias) no cosmo e na existência, no Mundo e no Tempo!

Se é assim, convida à expectativa de um “SobreNatural”, a uma possibilidade transcendente de propósito e finalidade, bem como de razão e causa. Ou então convida sua recusa ou negação, como hoje parecemos preferir. A consequência da Recusa é chamar a existência ao acaso e ao presente-imediato, positivado, matéria esgotando-se em sua desagregação e diluindo-se no tempo. Mas, ao contrário do que já se alardeou, a relação entre o Mundo e o Sobrenatural permanece uma questão aberta, e por vezes desconcertante, outras apaixonante.

Natureza e Mundo, como entendidos aqui, são interdependentes e remetem a longas durações, camadas criativas de experiências e contradições, possibilidades e negações. A natureza tanto é essência, força e dinâmica, quanto é nossa observação, apreciação e significação dessas causas (é cultura, conhecimento, sensibilidade), através das quais se torna palpável para nós.

Da mesma forma, nossos artefatos, nossos espaços, nossa cultura, em seu grito de independência da natureza, só fazem evidenciar sua presença. Não existimos fora da natureza, porque mesmo as técnicas contemporâneas decorrentes da ciência e da tecnologia são uma natureza transformada. Aliás, impondo-se como a realidade imediata e como mediação, não só nos ancoram em uma natureza sem transcendência, mas em uma natureza concebida cada vez mais como técnica. Hoje, reduzindo a natureza à matéria, nos avizinhamos do limite de pensarmos uma natureza que é técnica, obra e artefato da engenharia.

Mundo, no sentido em que estamos utilizando essa noção, é nossa construção cognitiva, simbólica, existencial, que se constitui nessa natureza contemporânea transformada em cultura e artefato, que frequentemente ao utilizá-la e ao oferecer-se como produto e produção humana, a ela se opõe. Nesse sentido, o mundo forma-se continuamente, tanto em nosso trabalho incorporado nela (natureza), quanto nele (mundo), por gerações, estabelecendo significados, contextos afetivos, possibilidades existenciais em diferentes durações e diferentes percepções das durações.

Ambos, natureza e mundo, nos proporcionam um longo e milenar agora, demarcado pela nossa breve existência que assim se amplia, propondo uma indagação do significado e sentido dessa existência e das heranças que conhecemos e escolhemos. Indo além, nos proporcionam múltiplas e contraditórias possibilidades de experiências estéticas e cognitivas, e nos convidam ou interditam a possibilidade de transcendência da natureza e do mundo, do tempo.

Caos e ordem, acaso e destino, solidão e sentido, coletivo e aleatório, espírito e matéria, tempo e eternidade, fé e razão, técnica e símbolo, entrelaçam-se em tessituras de beleza e de dramaticidade intensas, convidando-nos a campos afetivos, simbólicos, de desejos, de valores…

Além disso, circunscreve-se a vida, como a morte, na natureza. Mencionei acima a brevidade da vida, mas então implica-se a morte e assim o sobrenatural, ou a anulação dos sentidos a seu termo. A morte é um dado da experiência e do aprendizado humano. Se abre-se ao sobrenatural e à eternidade, ou mesmo a Deus, ou se é apenas o esgotamento nesta existência solar eliminando a possibilidade de “metamorfoses de uma forma de vida em outra” (como mencionou Edgar Morin [4]), não há como demonstrar. Mas, certamente, nossa consciência da vida é demarcada pela percepção da morte (mesmo quando a afastemos o quanto possível do cotidiano).

Não raro afastamos essa consciência a um horizonte fugidio, a um nunca final. Não há porque viver pensando na morte, não seria saudável, mas a velhice e os que nos deixam nos ensinam essa condição inexorável da existência como possibilidade. Quando isso ocorre, paradoxalmente, vivenciamos o mundo como que sentindo não a brevidade da existência, mas a eternidade do que somos. Mesmo pessoas apegadas ao agora, sem perspectiva de transcendência para esta existência, o fazem.

O Sétimo Selo, Direção e Roteiro de Ingmar Bergman, 1957. Fotografia: Gunnar Fischer. Montagem: Lennart Wallén. Música: Erik Nordgren. Gunnar Björnstrand, Bengt Ekerot (a morte), Nils Poppe, Max von Sydow (o cavaleiro), Bibi Andersson, Inga Gill. 1h 36min Disponível em carloslohse.blogspot.com.br/2015/10/resenha-de-filme-o-setimo-selo.html acesso em 20 de setembro de 2016.

A construção da nossa identidade mostra assim um elo forte e tenaz com a vida. Embora a morte refira-se ao tânatos, ao hades, ao sheol, aos lugares ocultos e velados, é uma condição da natureza. Costumamos pensar a natureza como a força vital e criadora, isolando a morte como uma condição da vida, mas de fato é corolário da vida como a conhecemos.

Entretanto, esta presença da ausência final na natureza, ou de sua transformação radical, coexiste na natureza, que se caracteriza fundamentalmente por essa força tenaz da vida. Etimologicamente [5], do latim, natura, comp. pelo tema natus, p.pass. de nascere = nascer e urus = sufixo do particípio futuro de oritur = surgir, gerar, a força que gera. Ou seja, a natureza não é apenas uma condição, um presente, ou uma geração, mas uma força operativa que se renova em oposição aos ciclos em que se esgota.

Em consequência, natureza não convida os humanos apenas à percepção e representação da vida (como bios) e da morte, mas de que sentido adquirem, seja como presente imediato, seja como devir inescrutável. Nessa disputa de sentidos, que é particularmente vívida e problemática em nossa sociedade, os mundos inscrevem-se em uma amplitude que transcende a natureza, ou nela se exaure. Natural e sobrenatural encontram-se e entrelaçam-se, ou, no limite, extinguem-se.

Há que se considerar que a “nossa” é a primeira “sociedade” com a pretensão de isolar na matéria e no acontecimento o significado da natureza e da existência (portanto, da história). Foi a “sociedade burguesa” e técnica (a sociedade urbana como chamou Henri Lefebvre [6] e o período Técnico-Científico pensado por Milton Santos [7]) que opôs consistente, e reiteradamente como valor social, a natureza e a fé, dissociando-as profundamente e considerando a natureza como o desfazimento da “superstição religiosa” por via do conhecimento do mundo natural. O homem jogou uma âncora na existência como que desejando retê-la, ou reter-se nela.

Mundo Natural, expressão muito significativa, como deve-se notar agora, que assim em nossa sociedade moderna e contemporânea, pela primeira vez, de modo determinante, deixaria de ter uma causa transcendente, mas se definiria como que interna e autônoma em seus processos, supondo-se por total acaso. Distinção e separação que também se afirmou entre poética e ciência, entendendo-se esta como conhecimento, enquanto o fragmenta em especialidades que permitem tanto o acúmulo e sua validação, quanto a profissionalização (que é uma forma de mercado do saber e de sua inserção no mercado).

Verificaremos que a natureza (e o mundo em suas temporalidades), nesses casos de uma duração bem mais longa do que esta em que estamos inseridos (que é tão recente), significa-se tanto no cosmo quanto na eternidade, tanto em ciclos quanto em extensões; tanto quanto na matéria, no intangível ao entendimento. Essas visões que permeiam nossas possibilidades, suas dimensões éticas e estéticas, simbólicas e políticas, permitem um magnífico campo de indagações no âmbito das quais podemos situar práticas e saberes, suas implicações, seu aprendizado.

Este é o campo a que convida A Natureza e o Tempo. Visões da natureza e do mundo, da vida e da morte…

 

 


notas do artigo e bibliografia citada

1 Viveiros de Castro (2002:113) abre seu artigo, que problematiza de modo sofisticado e perspicaz a relação com o campo, com essa citação, no mínimo provocante, para não dizer, desconcertante em suas possíveis implicações. VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. O nativo relativo. Mana, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, 2002. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-93132002000100005→ Acesso em 26 Jan. 2011.

2 ROSSET, Clément. A anti-natureza. Elementos para uma filosofia trágica. [1973] Trad. Getulio Puell. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989

3 LENOBLE, Robert. História da ideia de natureza. Lisboa, Edições 70, 1990.

4 “Em o Homem e a Morte, parecia-me que havia duas fontes e apenas duas (podendo se combinar de formas diversas) para as crenças universais na sobrevida: uma sendo a crença, ou melhor, a experiência do duplo, o alter ego, o ego alter, o outro eu, reconhecido no reflexo, na sombra, liberado nos sonhos, a outra sendo crença nas metamorfoses de uma forma de vida em outra.” MORIN, Edgar. O cinema ou o homem imaginário: ensaio de antropologia sociológica [1956, Prefácio da edição de 1977]. Trad. Luciano Loprete. São Paulo: É Realizações, 2014, pag 12.

5 Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Natureza#Etimologia→, acesso em 15 de junho de 2017.

6 LEFEBVRE, Henry. The Production of Space. Trad. Donald Nicholson-Smith. UK: Blackwell Publishing, 1991.

7 SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço. São Paulo: EDUSP, 2002

 

 


como citar:
SANDEVILLE JR., Euler. “Visões da natureza e do mundo”. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 15 de junho de 2017. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/06/14/visoes-da-natureza-e-do-mundo/ acesso em xx/xx/xxxx.

[para citar este artigo conforme normas acadêmicas, copie e cole a referência acima (atualize dia, mês, ano da visita ao sítio)]


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