a pesquisa: representações e poéticas

Arte, Natureza e Cidade. Estudos em História da Cultura e da Paisagem: Representações e Poéticas
Euler Sandeville Jr.

Latim: Schema huius praemissae divisionis sphaerarum. · Coelum empireum habitaculum dei et omnium electorum · 10 Decimum coelum primu mobile · 9 Nonu coelum cristallinum · 8 Octavum [coelum] firmamentu · 7 Coelu saturni · 6 [Coelu] Iovis · 5 [Coelu] Martis · 4 [Coelu] Solis · 3 [Coelu] Veneris · 2 [Coelu] Mercurii · 1 [Coelu] Lunae
Esquema da referido divisão das esferas. · O Empíreo céu (de fogo), habitação de Deus e de toda os eleitos · 10 Décimo Céu, causa primeira · 9 Nono céu, cristalino · 8 Oitavo céu do firmamento · 7 Céu de Saturno · 6 Jupiter · 5 Marte · 4 Sol · 3 Venus · 2 Mercúrio · 1 Lua. Fonte: Peter Apian, Cosmographia, Antuépia, 1524 (fonte mencionada Edward Grant, “Celestial Orbs in the Latin Middle Ages”, Isis, Vol. 78, No. 2. (Jun., 1987), pp. 152-173.) Disponível em commons.wikimedia.org/wiki/File:Ptolemaicsystem-small.png. Acesso em 30/01/2016.


Pesquisar é indagar a existência.

Todo esforço de conhecimento sempre foi, para mim, um esforço de indagação do mundo, do ser no mundo entre outros, de crítica social e cultural, de suas heranças, de debate comportamental, de condição existencial. Não me proponho, como nunca me propus desde que comecei minha atividade de pesquisa e docência, a excluir os campos das sensibilidades ou o das razões no processo cognitivo de construir conhecimento, nem os riscos e desafios de pensar os acontecimentos. Trata-se de elaborar um exercício profundo e continuado, discernindo entre a informação e sua crítica, o confronto de saberes longamente formulados e as narrativas que vão se reconstruindo. Essa construção da história e do presente é uma inquieta gestação de nossa condição humana e espiritual (quando se reconhece uma), e sua indagação é também a problematização de para onde apontam os movimentos em curso, dos quais percebemos por vezes apenas as sombras em movimento.

Simulação do cosmo em bilhões de anos (Künstlicher Kosmos emuliert Milliarden Jahre im Zeitraffer Simulation des Universums Künstlicher Kosmos emuliert Milliarden Jahre im Zeitraffer, Video: Nature Video, Foto: Illustris Collaboration). Imagem capturada da página de apresentação do vídeo. Fonte: sueddeutsche.de/wissen/simulation-des-kosmos-forscher-erschaffen-digitales-universum-1.1953657 Acesso em 30/01/2016

A linha de pesquisa docente Arte, Natureza e Cidade. Estudos em História da Cultura e da Paisagem: Representações e Poéticas” desenvolve estudos de história cultural da natureza e dos saberes e processos criativos na transformação do espaço, em uma perspectiva crítica dos nexos nos processos de sua produção, com foco nos campos da representação e do imaginário, da construção e transformação de significados, valores e comportamentos e das tensões entre diferentes territorialidades e representações culturais. Colocam-se assim em questão as visões de mundo e a construção de seus significados, bem como os esforços interpretativos, que os diversos sujeitos e projetos mobilizam no âmbito do imaginário e da cultura e nos processos de produção social das paisagens, suas formas de subjetivação, apropriação, valoração e gestão.

A pesquisa, embora formulada de modo mais definido a partir de meu ingresso na Universidade de São Paulo (2001), teve início na década de 1980. Em sua origem fui concebendo progressivamente um estudo das heranças, sensibilidades e ideários na apreciação e transformação das paisagens, das formas de sua representação e conceituação e na constituição de um campo de atuação profissional designado como paisagismo ou arquitetura da paisagem. Com o longo desenvolvimento dos estudos, ganhou interesse a história social do espaço e a história cultural. O que talvez melhor defina o meu interesse mais recente é o estudo das representações e do imaginário, em suas dimensões históricas e culturais, integrando diferentes campos de valores e práticas, territorialidades e temporalidades.

Os estudos se dão através de ensaios sobre os nexos e as representações em documentos históricos diversos (narrativas, memórias, relatórios, artes plásticas, música, cinema, literatura, ciências, mas também as configurações do espaço natural e habitado em sua transformação), considerando reciprocamente cultura e espaço. Atualmente, os estudos se organizam em três seções temáticas interdependentes que ora se sobrepõem ora exploram diferentes temporalidades:

1) “Estudos Judaico-Cristãos: História, Espaço e Cultura”: são estudos sobre os macroarranjos territoriais nos quais se configuram em sua longa duração essas tradições e ensaios temáticos onde temos o espaço e experiência do sagrado e do transcendente, as dimensões da devoção e da adoração, mas também os da organização social e dos modos de viver e conviver no privado e no público, nas comunidades de fé e suas inserções mais amplas, as territorialidades e tensões culturais implicadas. Se dá através de estudos e ensaios temáticos voltados para a compreensão histórica e cultural dos valores, da fé e tradições do judaísmo e do cristianismo em sua longa e diversa constituição, buscando sua relação histórica com os campos abarcados por interesses das artes, arquitetura, urbanismo e jardins, e contribuições da geografia, antropologia e ciências de religião. Os recortes cronológicos e espaciais aceitam potencialmente a abrangência secular dos movimentos sociais mais gerais, mas a aproximação exige estudos temáticos e situados que se desvelam no particular, no específico. Adquire crescente interesse, em relação com as demais seções temáticas de estudos, as mobilidades contemporâneas e os fatores geopolíticos em que estão implicadas, bem como as acirradas disputas na autorização/negação de narrativas que deveriam orientar a transformação social, comportamental e sensível. Este módulo de estudos foi iniciado em 2017, a partir da percepção de longas durações de diversos fenômenos contemporâneos (lato senso) e da necessidade da compreensão da construção de tradições, heranças, hermenêuticas e valores em conflito e disputa, dotados de uma complexa e contraditória elaboração cultural e histórica.

1) “Estudos da Cultura Contemporânea”: a pesquisa estuda e por vezes contrapõe movimentos contestatórios de inspiração libertária e pacifista, formas de ação política contemporâneas no contexto de mobilidade e reorganizações territoriais, movimentos artísticos de vanguarda e contraculturais em suas relações com a paisagem, a natureza e o ambiente. O que é contemporâneo? O que caracteriza o tempo que vivemos e o diferencia? Qual a duração das permanências e sua transformação? É possível que no contemporâneo residam elementos que não o sejam? Ou é contemporâneo tudo o que em um momento coexiste, transformado em suas raízes difíceis de discernir e embrenhadas em muitas e por vezes longuíssimas camadas de tempo, elas mesmas complexas em suas tecituras? Diferentes objetos definem diferentes temporalidades. Sucessivos pontos de partida ou retorno definem os estudos, alguns de natureza milenar, mas sempre tendo como um ponto de inflexão o período entre o Iluminismo e o penúltimo quarto do século XIX e o período a partir do final da Segunda Guerra Mundial. Problematizam-se novas formas comportamentais que se propõem e experienciam de fronteira e ruptura ou conservadoras e suas relações com as dimensões de resistência, assimilação e consumo, estabelecendo uma perspectiva crítica dos processos coletivos contestatórios na sociedade de contemporânea. Emergem questões subjetivas e sociais intensas, comprometidas com a dimensão coletiva da ética, da justiça, dos afetos; emergem visões da natureza e da sociedade, bem como do sentido da vida na construção de visões de mundo, da história, do devir humano, em um mundo contemporâneo a elas que também é de incompreensão, indiferença e violência, disputa pelo poder político na construção dos sentidos na tecitura do social, de suas instituições. Estes estudos adquiriram maior razão de ser, sobretudo a partir dos resultados do doutorado (1999) e da observação crítica de rápidas, tensas e intensas transformações sociais, comportamentais, territoriais e ambientais, no decorrer da própria experiência vivida do pesquisador.

1) “Estudos Brasileiros: Paisagem, Urbanização e Cultura”: estuda representações da natureza e do Brasil a partir de ensaios sobre diferentes séries documentais selecionadas (narrativas, memórias, relatórios, artes plásticas, música, cinema, e outras fontes), procurando desvendar os contextos históricos em que são produzidos, o ideário que mobilizam, suas percepções e representações. A partir dos interlocutores selecionados, pergunta-se que representações da realidade mobilizaram e quais mobilizamos ao visitá-los; e porque o fazemos. Interessam visões de mundo que afloram nesse processo e nos debates. Essas séries documentais visitadas nos permitem pensar sobre visões de estrangeiros e brasileiros sobre si mesmos e os outros em diferentes momentos históricos, suas paisagens e as “nossas”, colocando em discussão seus projetos e visões sobre seu mundo, o seu tempo. Convidam a indagarmos os fluxos culturais entre centros e periferias, hibridismos, processos criativos e de conformação. Permitem pensar historicamente movimentos sociais e culturais urbanos com suas formas de apropriação ou resistência e suas representações e a pensar no tempo tradições eruditas da cultura brasileira e suas explicações e problematizações do país e suas realidades. Estimulam pensar a produção cultural e artística conservadora, de vanguarda e popular, questionando suas representações e vínculos. A partir desses nossos interlocutores selecionados, pergunta-se que representações da realidade mobilizaram e quais mobilizamos ao visitá-los; e porque o fazemos. Interessam visões de mundo que afloram nesse processo e nos debates. Os estudos foram iniciados nos anos 1980, mas tem como marco a partir do qual se constroem a Tese de doutoramento (1994-1999).

 

 


como citar:
SANDEVILLE JR., Euler. “A pesquisa: representações e poéticas“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2018. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/06/15/pesquisa/, acesso em XX/XX/XXXX.

[para citar este artigo conforme normas acadêmicas, copie e cole a referência acima (atualize dia, mês, ano da visita ao sítio)]


núcleo de estudos da paisagem
a natureza e o tempo (o mundo)
um projeto de euler sandeville

 

 

 

 

 

 

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