“O voto ou a bala”, Malcolm X, 3 de abril de 1964,Cleveland, Ohio , pouco depois do rompimento de Malcolm com a NOI (Nation of Islam)

“O voto ou a bala”, Malcolm X, 3 de abril de 1964,Cleveland, Ohio, pouco depois do rompimento de Malcolm com a NOI (Nation of Islam, criada em 1930).


Malcolm X’s only meeting with Martin Luther King Jr., March 26, 1964 at Senate debate on the Civil Rights Act. Disponível em https://en.wikipedia.org/wiki/Malcolm_X acesso em 21 de maio de 2018.

 

Senhor Moderador, irmão Lomax, irmãos e irmãs, amigos e inimigos: eu não posso acreditar que todo mundo aqui é um amigo e não quero deixar ninguém de fora. A questão desta noite, como eu a entendo, é: “A revolta negra e para onde vamos” ou “Qual é o próximo passo?”. Na minha modesta forma de entender, ela aponta para o voto ou para a bala.

Antes de explicar o que queremos dizer com o voto ou a bala, gostaria de esclarecer algo a meu respeito. Ainda sou muçulmano; a minha religião ainda é o Islã. É a minha crença pessoal. Assim como Adam Clayton Powell é o pastor cristão que coordena a Igreja Batista Abissínia de Nova Iorque, mas ao mesmo tempo toma parte nas lutas políticas para tentar ganhar direitos para os negros deste país; e o dr. Martin Luther King é um pastor cristão lá em Atlanta, Geórgia, mas lidera outra organização que luta pelos direitos civis dos negros neste país; e o reverendo Galamison — eu acho que vocês já ouviram falar dele — é outro pastor cristão em Nova Iorque que esteve profundamente envolvido nos boicotes para acabar com a segregação nas escolas. Bem, eu também sou um pastor, mas não um pastor cristão e sim um pastor muçulmano, e acredito na ação em todas as frentes por todos os meios necessários.

Apesar de ainda ser um muçulmano, não estou aqui hoje para discutir minha religião. E não estou aqui para tentar mudar a sua religião. Não estou aqui para argumentar ou discutir sobre nossas discordâncias, pois é hora de colocarmos nossas diferenças de lado e percebermos o que é melhor para nós; antes de tudo, entender que temos o mesmo problema, comum a todos, um problema que fará você ir para o inferno, não importando se é um batista, um metodista, um muçulmano ou um nacionalista. Seja você instruído ou analfabeto, resida na avenida ou na sarjeta, irá da mesma forma para o inferno, como eu. Nós estamos no mesmo barco e estamos indo para o inferno por causa do mesmo homem. Por acaso ele é um homem branco. Todos nós já sofremos aqui, neste país, a opressão política pelas mãos do homem branco, a exploração econômica pelas mãos do homem branco e a degradação social pelas mãos do homem branco.

Agora, falando assim, não quero dizer que nós somos antibrancos, mas sim que somos antiexploração, antidegradação e antiopressão. E se o homem branco não quiser que sejamos antiele, que pare de nos oprimir, de nos explorar e de nos degradar. Mesmo se nós formos cristãos, ou muçulmanos, ou nacionalistas, ou agnósticos, ou ateus, devemos primeiro aprender a esquecer nossas diferenças. Se tivermos diferenças, que discordemos em privado, para que em público não discutamos nada até terminarmos a conversa com o homem. Se o falecido presidente Kennedy podia se reunir com Khruschev e trocar com ele um pouco de trigo, nós com certeza temos mais em comum uns com os outros do que Kennedy tinha com Khrushchev.

Se não fizermos algo logo, eu acho que vocês terão que concordar que seremos obrigados a usar o voto ou a bala. É um ou outro em 1964. Não é que o tempo esteja acabando — ele já acabou!

O ano de 1964 ameaça ser o mais explosivo que a América já viveu. O ano mais explosivo. Por quê? Porque é também um ano eleitoral. É o ano em que todos os políticos brancos estarão de volta à assim chamada comunidade negra enganando você e eu em troca de alguns votos. O ano em que todos os canalhas políticos brancos estarão de volta à sua e à minha comunidade com as promessas falsas deles, inflando nossas esperanças para depois nos decepcionar, com os seus truques e traições, com as falsas promessas que não pretendem cumprir. E o fato de eles alimentarem essas insatisfações só pode levar a uma coisa: uma explosão. E agora temos em cena, na América de hoje, um tipo de homem negro — desculpe, irmão Lomax — que simplesmente não tem intenção de oferecer a outra face por mais tempo.

Não deixe ninguém lhe dizer das dificuldades que estão no seu caminho. Se alistarem você, eles o mandarão para a Coreia para enfrentar 800 milhões de chineses. Se você pode ser corajoso lá, pode ser corajoso aqui também. As condições daqui não são tão adversas quanto as de lá. E se você lutar aqui, você saberá pelo que estará lutando.

Eu não sou um político, nem um estudante de política; na verdade, não sou um estudante de muita coisa. Não sou democrata. Não sou republicano e também nem me considero americano. Se eu e você fôssemos americanos, não haveria problema algum. Esses branquelos que acabam de sair do barco já são americanos; os polacos são americanos; os refugiados italianos são americanos. Tudo o que venha da Europa, qualquer coisa de olhos azuis é imediatamente americana. Já eu e você, com todo o tempo em que estamos aqui, ainda não somos americanos.

Bem, eu não sou dos que gostam de se iludir. Eu não irei me sentar à sua mesa e assistir à sua refeição, com nada no meu prato, e me chamar de comensal. Sentar à mesa não faz de você comensal, a não ser que você coma algo no prato. Estar aqui na América não nos faz americanos. Ter nascido na América não nos faz americanos. Ora, se o nascimento fizesse de você um americano, não haveria necessidade de nenhuma legislação. Você não precisaria de emendas na Constituição. Você não estaria enfrentando embromadores de direitos civis em Washington, D.C., neste exato momento. Eles não têm de aprovar leis de direitos civis para transformar os polacos em americanos.

Não, eu não sou americano. Sou um dos 22 milhões de negros que são vítimas do americanismo. Um dos 22 milhões de negros que são vítimas da democracia, que não passa de hipocrisia disfarçada. Então, não estou aqui falando como um americano, ou um patriota, ou como alguém que saúda ou agita a bandeira — não, eu não. Estou falando como uma vítima desse sistema americano. E vejo a América pelos olhos da vítima. Não vejo nenhum sonho americano; vejo um pesadelo americano.

Esses 22 milhões de vítimas estão acordando. Seus olhos estão se abrindo. Estão começando a realmente ver o que antes apenas olhavam. Estão se tornando politicamente maduros. Entendem que existem novas tendências políticas de um extremo a outro deste país. Ao avistar essas novas tendências, é possível que eles vejam que em toda eleição há uma corrida tão acirrada a ponto de ser preciso fazer a recontagem dos votos. Tiveram que fazer isso em Massachusetts para descobrir quem era o novo governador, de tão apertada que foi a votação. O mesmo ocorreu em Rhode Island, em Minnesota e em muitas outras partes do país. Foi a mesma coisa com Kennedy e Nixon naquela eleição presidencial. Foi tão acirrada que tiveram que contar tudo de novo. Bem, o que isso quer dizer? Quer dizer que quando os brancos estão divididos de forma equilibrada e os negros formam um bloco próprio de votos, eles acabam por determinar quem irá assumir a Casa Branca e quem irá para a casa do cachorro.

Foi o voto do homem negro que colocou a administração atual em Washington, D.C. O seu voto, o seu voto idiota, o seu voto ignorante, o seu voto desperdiçado dado a uma administração em Washington que achou por bem aprovar todo tipo de legislação imaginável, deixando você por último e ainda por cima enganando você. E os seus e os meus líderes tiveram a audácia de andar por aí aplaudindo e falando que há muito progresso sendo realizado. E que presidente bom nós temos. Se ele não foi bom no Texas, ele com certeza não será bom em Washington, D.C. Porque o Texas é um estado que lincha. E é assim também no Mississipi; só que eles lincham você no Texas com o sotaque do Texas e lincham você no Mississipi com o sotaque do Mississipi. E estes líderes negros tiveram a audácia de ir tomar café na Casa Branca com um texano, um branquelo sulista — e isso é tudo o que ele é — e depois saíram e disseram para mim e para você que ele será melhor para nós, pois ele é do sul e portanto sabe lidar com os sulistas. Que tipo de lógica é essa? Deixemos Eastland ser presidente, ele é do sul também. Ele deve saber lidar melhor com eles do que o Johnson.

Na atual administração, eles têm na Câmara de Representantes 257 democratas para apenas 177 republicanos. Controlam dois terços dos votos da Câmara. Por que eles não podem aprovar algo que irá ajudar a você e a mim? No Senado há 67 senadores do Partido Democrata. Só 33 são republicanos. Ora, os democratas têm esse governo na mão e foi você que o pôs na mão deles. E o que eles lhe deram? Quatro anos de mandato e só agora se está chegando a alguma legislação de direitos civis. Só agora, depois que tudo mais acabou, e não há mais nada no horizonte, é que eles vão se sentar para brincar com você por todo o verão — a mesma velha grande vigarice que eles chamam de obstrução parlamentar. Todos eles cúmplices. Nem se atreva a pensar que eles não são cúmplices, pois o homem que está liderando a obstrução parlamentar dos direitos civis é um nativo da Geórgia chamado Richard Russell. Quando Johnson se tornou presidente, o primeiro homem que ele pediu que viesse para Washington, D.C. foi “Dicky” — esse é o grau de intimidade dos dois. Esse é seu garoto, seu amigo, seu parceiro. Mas eles continuam jogando o mesmo velho jogo de vigarices. Um deles finge que está do seu lado e deixa as coisas parecerem assim, enquanto o outro fica de tal maneira contra, que o primeiro nunca pode manter suas promessas.

Então, em 1964, está na hora de acordar. E quando você os vir tramando esse tipo de armação, deixe que eles saibam que os seus olhos estão abertos. E deixe que eles conheçam você. Outra coisa que deve estar também muito clara: tem que ser no voto ou na bala. O voto ou a bala. Se você tem receio de usar uma expressão como essa, você deve sair deste país; você deve voltar para os campos de algodão; você deve voltar para o beco. Eles têm todos os votos negros, e depois que os conseguem, o negro não tem nada em troca. Tudo o que eles fizeram ao chegar a Washington foi conceder empregos importantes a um punhado de negros importantes. Mas esses negros importantes não precisavam de empregos importantes, eles já tinham empregos. Isso é camuflagem, é trapaça, é traição, é um enfeite. Não estou tentando pôr para fora os democratas para ajudar os republicanos. Nós falaremos deles em um minuto. Mas é verdade: você põe os democratas em primeiro lugar e os democratas deixam você em último.

Olhe como as coisas são. Quais álibis eles usam, desde que controlam o Congresso e o Senado? Qual álibi eles usam quando você e eu perguntamos: “Bem, quando vocês irão cumprir sua promessa?” Eles culpam os dixiecratas. 1 O que é um dixiecrata? Um democrata. Um dixiecrata não é nada senão um democrata disfarçado. O principal líder dos democratas também é o líder dos dixiecratas, porque os dixiecratas também são parte do Partido Democrata. Os democratas nunca expulsaram os dixiecratas do partido. Os dixiecratas deram o fora uma vez, mas os democratas não os puseram para fora. Imagine esses segregacionistas sulistas de baixo escalão humilhando os democratas nortistas. Mas os democratas nortistas nunca humilharam os dixiecratas. Não, olhe como a coisa é. Eles usam de má-fé, uma má-fé política, e eu e você estamos no meio dela. Está na hora de eu e você acordarmos e começarmos a vê-la como ela é, e tentar entender a forma com que se apresenta, e assim poderemos lidar com ela tal como é.

Os dixiecratas em Washington, D.C. controlam os principais comitês que dirigem o governo. A única razão pela qual os dixiecratas controlam esses comitês é porque têm a senioridade. 2 A única razão de terem senioridade é porque eles advêm de estados onde os negros não podem votar. Este não é nem mesmo um governo baseado na democracia. Esse não é um governo feito por representantes do povo. Metade das pessoas no sul não pode votar. Eastland não deveria sequer estar em Washington. Metade dos senadores e congressistas que ocupam posições-chave em Washington, D.C. estão lá de forma ilegal, estão lá inconstitucionalmente.

Eu estava em Washington, D.C. há uma semana, quando eles debateram se deveriam ou não deixar a lei ser levada a plenário. E, nos fundos do salão onde o Senado se reúne, há um mapa enorme dos Estados Unidos, que mostra a distribuição dos negros pelo país todo. E mostra que na seção sul do país, os estados que têm maior concentração de negros são aqueles que têm senadores e congressistas empenhados em obstruir a discussão da legislação e arquitetando todo tipo de trapaça para impedir o negro de votar. Isso é lamentável. Mas não é mais lamentável para nós; na verdade, é lamentável para o homem branco, pois em breve, quando o negro acordar um pouco mais e enxergar a armadilha em que está preso, o buraco em que está, enxergar o verdadeiro jogo em que está, o negro irá desenvolver uma nova tática.

Na verdade, esses senadores e congressistas violam as emendas constitucionais que garantem o direito de voto do povo desse estado ou condado particular. E a própria Constituição contém mecanismos para expulsar qualquer representante de um estado onde os direitos de voto do povo são violados. Nem se precisa de uma nova legislação para isso. Agora mesmo, qualquer pessoa no Congresso que seja oriunda de um estado ou distrito onde os direitos de voto do povo são violados, essa pessoa específica deve ser expulsa do Congresso. E quando a expulsarem, terá sido removido um dos obstáculos que impedem a criação de uma legislação verdadeiramente significativa para este país. Na verdade, quando você o expulsar, não será necessária uma nova legislação, porque eles serão substituídos por representantes negros nos condados e distritos onde o homem negro é maioria, e não minoria.

Se o negro nesses estados sulistas tivesse seu pleno direito ao voto, os principais dixiecratas em Washington, que são os principais democratas em Washington, perderiam suas cadeiras. O próprio Partido Democrata perderia seu poder. Ele deixaria de ser tão poderoso como partido. Quando você vê quanto poder o Partido Democrata perderia se ele perdesse a sua seção, ou ala, ou elemento dixiecrata, você pode ver também que é contra os interesses dos democratas conceder os direitos de voto aos negros, em estados nos quais os democratas têm mantido poder e autoridade absolutos desde a Guerra Civil. Você simplesmente não pode pertencer a esse partido sem analisar esse aspecto.

Digo mais uma vez, não sou antidemocrata, não sou antirrepublicano, não sou antinada. Estou apenas questionando a sinceridade deles e algumas das estratégias que têm usado com o nosso povo ao prometer coisas que não pretendem cumprir. Quando você mantém um democrata no poder, você também mantém os dixiecratas no poder. Duvido que o meu bom irmão Lomax negue isso. O voto para um democrata é um voto para um dixiecrata. É por isso que, em 1964, chegou a hora de você e eu nos tornarmos mais maduros politicamente e percebermos para o que serve o voto; e o que nós temos a ganhar quando depositamos o voto na urna; e também que, se nós não usarmos o voto, acabaremos numa situação em que teremos que usar a bala. É o voto ou a bala.

No norte, eles agem de forma diferente. Eles têm um sistema que é conhecido como gerrymandering, seja lá o que isso queira dizer. Significa dizer que quando os negros estão muito concentrados em uma área e começam a ganhar muito poder político, o homem branco aparece e muda as linhas divisórias dos distritos. Você pode dizer: “Por que você fica falando do homem branco?” Porque é o homem branco quem faz isso. Eu nunca vi nenhum negro mudando qualquer linha que seja. Eles não deixam que ele se aproxime da linha. É o homem branco quem faz isso. E, geralmente, é o homem branco quem mais sorri para você, e dá um tapinha nas suas costas, e parece ser seu amigo. Ele pode ser amigável, mas não é seu amigo.

Então, essencialmente, o que estou tentando dizer para você é o seguinte: você e eu, na América, não estamos lidando com uma trama segregacionista, mas sim com uma trama governamental. Todos os que estão obstruindo a legislação são senadores — ou seja, é o governo. Todos os que estão trapaceando em Washington são congressistas — ou seja, é o governo. Você não tem ninguém pondo obstáculos no seu caminho, a não ser pessoas que são parte do governo. O mesmo governo pelo qual você luta e morre em terras estrangeiras, é o governo que trama para privá-lo do direito ao voto, privá-lo de oportunidades econômicas, privá-lo de uma moradia decente, privá-lo de uma educação decente. Você não precisa enfrentar somente o seu empregador, é o próprio governo, o governo da América, que é responsável pela opressão, exploração e degradação do povo negro neste país. E você deve jogar isso no colo deles. O governo falhou com o negro. A assim chamada democracia falhou com o negro. E todos esses liberais brancos, definitivamente, falharam com o negro.

Então, para onde vamos? Primeiro, precisamos de alguns amigos. Precisamos de alguns novos aliados. Toda a luta pelos direitos civis necessita de uma nova interpretação, uma interpretação mais ampla. Nós precisamos olhar essa coisa dos direitos civis por outro ângulo — tanto do ângulo interno quando do ângulo externo. Para aqueles de nós que seguem a filosofia do nacionalismo negro, a única forma de se envolver na luta pelos direitos civis é ter uma nova interpretação do fenômeno. A antiga interpretação nos excluiu. Deixou-nos de fora. Então, estamos dando uma nova interpretação à luta por direitos civis, uma interpretação que irá nos ajudar a entrar nela, a tomar parte nela. E todos os bonzinhos que vêm adiando, enrolando e fazendo concessões — nós não queremos deixá-los adiar, enrolar e conceder mais.

Como você pode agradecer a um homem por lhe dar algo que já é seu? Como você agradece a ele por lhe dar apenas parte do que já é seu? Você não fez nenhum progresso se você já deveria ter o que estão lhe dando. Isso não é progresso. Eu gosto do meu irmão Lomax, da forma como ele destacou que voltamos para onde estávamos em 1954. E nem sequer estamos no mesmo ponto que em 1954. Nós estamos atrás de 1954. Há mais segregação hoje do que em 1954. Existe mais animosidade racial, mais ódio racial, mais violência racial em 1964 do que em 1954. Onde está o progresso?

E agora você enfrenta uma situação em que os jovens negros estão começando a aparecer. Eles não querem ouvir aquela história de “dar a outra face”, não. Em Jacksonville, eram adolescentes, e estavam jogando coquetéis Molotov. Negros nunca tinham feito isso antes. Mas é o que mostra que há algo novo surgindo. Há um pensamento novo surgindo. Há uma nova estratégia. Serão coquetéis Molotov neste mês, granadas no próximo e outra coisa no mês seguinte. Serão votos ou serão balas. A única diferença sobre esse tipo de morte — agora ela será recíproca. Você sabe o que quer dizer “recíproco”? Essa é uma das palavras do irmão Lomax. Eu roubei dele. Eu geralmente não lido com grandes palavras porque geralmente não lido com pessoas grandes. Eu lido com pessoas comuns. Eu descobri que você pode juntar uma multidão de pessoas comuns e dar uma surra num bando de pessoas grandes. Eles não têm nada a perder e têm tudo a ganhar. E eles te dirão num minuto: “É preciso duas pessoas para dançar um tango; quando eu começo, você começa”.

Os nacionalistas negros, aqueles cuja filosofia é o nacionalismo negro, ao trazerem esta nova interpretação sobre o significado dos direitos civis como um todo, consideram que se trata, como o irmão Lomax apontou, da igualdade de oportunidades. Bem, nós estamos certos ao buscar os direitos civis, se isso quer dizer igualdade de oportunidades, porque o que estamos fazendo aqui é tentar recolher o nosso investimento. Nossos pais e mães investiram suor e sangue. Por 310 anos trabalhamos nesta terra sem um centavo de retorno — eu falei sem um centavo de retorno. Deixa-se o homem branco andar por aí falando sobre o quanto este país é rico, mas nunca paramos para pensar em como ele se tornou rico tão rápido. Tornou-se rico porque você o fez ser tão rico.

Temos como exemplo as pessoas que estão nessa plateia agora. Elas são pobres. Individualmente nós somos pobres. Nosso salário semanal individual não dá para quase nada. Mas se você pegar os salários de todos aqui coletivamente, isso encherá muitas cestas. É muita riqueza. Se conseguir reunir apenas os ganhos das pessoas que estão aqui por um ano, você se tornará rico — mais rico do que rico. Quando você olhar para isso desse ângulo, pense no quanto o Tio Sam se tornou rico, não apenas com essa meia dúzia, mas com milhões de pessoas negras. Seu pai e sua mãe, e os meus, que não trabalhavam por um expediente de oito horas, mas trabalhavam do “escuro” da manhã até o “escuro” da noite, e trabalhavam por nada, tornaram o homem branco rico, tornaram o Tio Sam rico. Esse é o nosso investimento. Essa é a nossa contribuição: o nosso sangue.

Não apenas cedemos nossa força de trabalho gratuita, nós demos o nosso sangue. Toda vez que o homem branco fazia uma chamada às armas, nós éramos os primeiros a vestir o uniforme. Nós morremos em todos os campos de batalha que o homem branco arranjou. Nós demos uma contribuição maior do que qualquer um na América de hoje. Nós fizemos uma contribuição maior e recebemos menos. Os direitos civis, para aqueles de nós que são adeptos da filosofia do nacionalismo negro, querem dizer: “Dê para nós, agora. Não espere até o ano que vem. Dê para nós ontem, e isso ainda não é rápido o suficiente”.

Eu posso fazer uma pausa aqui para chamar a atenção para uma coisa. Quando você busca algo que lhe pertence, quem quer que impeça o seu direito de consegui-lo é um criminoso. Entenda isso. Quando você busca algo que é seu, você está dentro dos limites legais para reivindicar esse algo. E quando alguém se empenha em tirar o que é seu, ele está infringindo a lei e é um criminoso. E isso foi determinado pela decisão da Corte Suprema dos Estados Unidos. Ela determinou o caráter ilegal da segregação.

Isso significa que a segregação é ilegal. O que significa que um segregacionista está infringindo a lei. Um segregacionista é um criminoso. Você não pode rotulá-lo de outra forma. E quando você protesta contra a segregação, a lei está do seu lado.

A Corte Suprema está do seu lado. Agora, quem está se opondo a que você cumpra a lei? Justamente a polícia. Com cães policiais e cassetetes. Toda vez que você protesta contra a segregação, seja a educação segregada, a habitação segregada ou qualquer outra coisa, a lei está do seu lado, e qualquer um que esteja no seu caminho não representa mais a lei. Eles estão infringindo a lei; eles não representam a lei. Toda vez que você protesta contra a segregação e alguém tem a audácia de lançar um cão policial contra você, mate esse cão, mate, estou lhe dizendo, mate esse cão. Eu digo, mesmo que me ponham na prisão amanhã, mate esse cão. Assim você poderá pôr um fim nisso tudo. Agora, se esses brancos aqui não querem ver esse tipo de ação, então, mexam-se e digam ao prefeito para ordenar que a polícia prenda seus cachorros. É tudo o que vocês devem fazer. Se vocês não fizerem isso, outra pessoa fará.

Se você não se mobilizar, suas crianças crescerão e olharão para você, pensando: “que vergonha”. Você deve tomar uma posição firme, e eu não quero incitar você a sair cometendo atos violentos, mas, ao mesmo tempo, você nunca deve ser não violento a não ser que encontre a não violência pela frente. Eu não sou violento com aqueles que não são violentos comigo. Mas quando alguém usa a violência contra mim, então eu fico danado e não sou responsável pelos meus atos. É assim que todo negro deve agir. Toda vez que souber que está dentro da lei, dentro dos seus direitos legais, dentro dos seus direitos morais, de acordo com a justiça, então morra pelo que acredita. Mas não morra sozinho. Deixe que a sua morte seja recíproca. É isso o que igualdade significa. O que é bom para a pata é bom para o pato.

Quando começamos a entrar nessa área, precisamos de novos amigos, de novos aliados. Precisamos expandir a luta dos direitos civis para um nível mais alto — para o nível dos direitos humanos. Sempre que você luta pelos direitos civis, quer saiba disso ou não, está se limitando à jurisdição do Tio Sam. Ninguém do mundo exterior pode falar em seu favor se sua luta é por direitos civis. Os direitos civis situam-se nos assuntos internos deste país. Todos os nossos irmãos africanos, asiáticos e latino-americanos não podem abrir a boca e interferir nos assuntos internos dos Estados Unidos. Enquanto se tratar de direitos civis, tudo fica na jurisdição do Tio Sam.

Mas as Nações Unidas têm o que chamam de declaração dos direitos humanos; e têm um comitê que lida com os direitos humanos. Você pode se perguntar por que todas as atrocidades cometidas na África, na Hungria, na Ásia e na América Latina são levadas às Nações Unidas, e o problema do negro, não. Isso é parte da trama. Esse velho liberal trapaceiro de olhos azuis que deveria ser nosso amigo, e que deveria estar do nosso lado, que deveria subsidiar nossa luta, e que deveria atuar como um conselheiro, nunca lhe diz nada sobre os direitos humanos. Eles confinam você aos direitos civis. E você passa muito tempo lutando pelos direitos civis sem saber que existem os direitos humanos no mesmo nível.

Quando você expande a luta dos direitos civis para o nível dos direitos humanos, então você pode levar o problema do homem negro às nações que formam a ONU. Você pode levá-lo à assembleia geral. Você pode levar o Tio Sam a um tribunal mundial. Mas o único nível em que você pode fazer isso é o dos direitos humanos. Os direitos civis confinam você dentro das restrições dele, na jurisdição dele. Os direitos civis põem você no bolso dele. Os direitos civis significam que você está pedindo ao Tio Sam que o trate direito. Os direitos humanos são algo que nasce com você. Os direitos humanos são direitos dados por Deus. Os direitos humanos são direitos reconhecidos por todas as nações deste mundo. E toda vez que alguém viola seus direitos humanos, você pode levá-lo ao tribunal mundial.

As mãos do Tio Sam estão pingando sangue, pingando com o sangue do homem negro deste país. Ele é o hipócrita número um da terra. Ele tem a audácia — sim, ele tem — de posar de líder do mundo livre. Do mundo livre! E você aí cantando We shall overcome. 3 Expanda a luta dos direitos civis para o nível dos direitos humanos. Leve isso para as Nações Unidas, onde nossos irmãos africanos podem jogar o seu peso do nosso lado, onde nossos irmãos asiáticos podem jogar o seu peso do nosso lado, onde nossos irmãos latino-americanos podem jogar o seu peso do nosso lado e onde 800 milhões de chineses estão apenas esperando para jogar o seu peso do nosso lado.

Deixe que o mundo saiba como as mãos dele estão manchadas de sangue. Deixe que o mundo saiba da hipocrisia que é praticada por aqui. Deixe que seja o voto ou a bala. Deixe que ele saiba que deve ser o voto ou a bala.

Quando você leva o seu caso para Washington, está apresentando-o ao criminoso responsável; é como fugir do lobo para cair nas mãos da raposa. Eles são todos cúmplices. Eles cometem uma trapaça política e fazem com que você pareça um idiota aos olhos do mundo. Assim, você está perambulando pela América, preparando-se para ser alistado e mandado para fora do país, como um soldadinho de chumbo, e quando chegar por lá, as pessoas perguntarão por que você está lutando, e você terá que inventar uma resposta mentirosa. Não, leve o Tio Sam para o tribunal, leve-o aos olhos do mundo todo.

Por voto eu apenas quero dizer liberdade. Você não sabe — e eu discordo de Lomax nesse assunto — que o voto é mais importante do que o dólar? Será que eu posso provar isso? Sim. Olhe para as Nações Unidas. Existem nações pobres nas Nações Unidas; mesmo assim, essas nações pobres podem se juntar com o seu poder de voto e impedir que as nações ricas façam um determinado movimento. Lá eles têm uma nação… um voto, todos têm um voto de igual valor. E quando esses irmãos da Ásia, da África e das partes mais escuras deste mundo se juntarem, o seu poder de voto será suficiente para manter o Tio Sam em xeque. Ou manter a Rússia em xeque. Ou qualquer outra parte do mundo. Enfim, o voto é o mais importante.

Agora, neste país, se eu e você, 22 milhões de afro-americanos — é isso que somos — africanos que estão na América. Você não é nada além de um africano. Nada além de um africano. Na verdade, você iria mais longe se chamando de africano do que de negro. Os africanos não têm problemas. Você é o único com problemas. Eles não têm que aprovar leis de direitos civis para os africanos. Um africano pode ir a qualquer lugar aonde queira neste exato momento. Tudo o que você tem de fazer é enfaixar sua cabeça. É isso mesmo, vá onde quiser. Deixe apenas de ser um negro. Mude seu nome para Hoogagagooba. Isso irá lhe mostrar o quanto os homens brancos são tolos. Você está lidando com um tolo. Eu tenho um amigo que é muito escuro. Pois bem, ele pôs um turbante na cabeça e entrou em um restaurante em Atlanta antes que eles se autonomeassem de dessegregados. Ele foi a um restaurante branco, se sentou, foi servido e perguntou: “O que aconteceria se um negro viesse aqui?”. E lá estava ele, escuro como a noite, mas porque tinha enfaixado a cabeça, a garçonete o olhou e disse: “Ora, nenhum crioulo teria coragem de entrar aqui”.

Então, você está lidando com um homem cujos próprios vieses e preconceitos o estão enlouquecendo, fazendo-o perder sua inteligência, todos os dias. Ele está aterrorizado. Ele olha em volta e vê o que está acontecendo no mundo, e vê o pêndulo do tempo balançando em direção a você. As pessoas escuras estão despertando. Estão perdendo o medo do homem branco. Em nenhum lugar onde o homem branco está lutando agora, está vencendo. Em todos os lugares em que está lutando, ele está lutando com alguém com a nossa compleição. E eles o estão vencendo. Ele não pode mais vencer. Ele já venceu a sua última batalha. Ele não conseguiu vencer a Guerra da Coreia. Ele não pôde vencê-la. Ele teve que assinar uma trégua. Isso é uma derrota.

Toda vez que o Tio Sam, com toda a sua maquinaria de guerra, é levado a um empate com uns comedores de arroz, perdeu uma batalha. Teve que assinar uma trégua. Não se espera que a América assine tréguas. Espera-se que ela seja malvada. Mas ela não é mais tão malvada. Ela é malvada se puder usar sua bomba de hidrogênio, mas não pode usá-la com medo de que a Rússia use a dela. Já a Rússia não pode usar a sua, com medo que o Sam use a bomba dele. Então, os dois estão sem armas. Eles não podem usar suas armas, pois a arma de um anula a do outro. Então, o único espaço em que a ação pode ocorrer é no solo. Mas o homem branco não pode vencer outra guerra travada no solo. Esses dias se acabaram. O homem negro sabe disso, o homem marrom sabe disso, o homem vermelho sabe disso e o homem amarelo sabe disso. Então eles o levam para a guerra de guerrilha. E esta não faz o seu estilo. Você tem que ter coração para ser um guerrilheiro, e ele não tem mais nenhuma. É o que estou lhe dizendo agora.

Eu só gostaria de fazer para vocês uma breve introdução a respeito da guerra de guerrilha porque, antes de vocês a conhecerem, antes de vocês a conhecerem [sic]. É preciso coragem para ser um guerrilheiro, pois você está sozinho. Na guerra convencional, você tem tanques e muitas outras pessoas para lhe dar proteção — aviõessobre sua cabeça, essas coisas. Mas um guerrilheiro está sozinho. Tudo o que você tem é um rifle, tênis e uma tigela de arroz, e isso é tudo de que você precisa — e muita coragem. Os japoneses, em algumas daquelas ilhas do Pacífico, quando os soldados americanos desembarcavam, às vezes um só japonês podia segurar todo o exército. Ele só esperava o crepúsculo e, quando o sol desaparecia, todos seriam iguais. Ele pegaria sua pequena faca, se esgueiraria de arbusto em arbusto, e iria de americano em americano. Os soldados brancos não conseguiam lidar com isso. Quando você vê um soldado branco que lutou no Pacífico, ele tem tremores, tem um problema nervoso, pois os japoneses o aterrorizavam.

A mesma coisa aconteceu com os franceses na Indochina Francesa. Pessoas que poucos anos antes eram camponeses que plantavam arroz se juntaram e expulsaram o altamente mecanizado exército francês da Indochina. Você não precisa desse tipo de coisa — as técnicas modernas de guerra não funcionam hoje em dia. Estes são os dias da guerrilha. Eles fizeram a mesma coisa na Argélia. Os argelinos, que não eram nada além de beduínos, se agruparam e fugiram para as montanhas e de Gaulle e todo o seu aparato bélico não conseguiram derrotar tais guerrilheiros. Em nenhum lugar do mundo o homem branco consegue derrotar uma guerrilha. Não é o negócio dele. Como a guerrilha está vencendo na Ásia, em partes da África e da América Latina, você tem que ser muito inocente, ou considerar muito pouco homem negro, se pensa que um dia ele não vai acordar e descobrir que o caminho será o voto ou a bala.

Eu gostaria de dizer, para finalizar, algumas coisas sobre a Muslim Mosque Inc., 4 que nós abrimos recentemente em Nova Iorque. É verdade que somos muçulmanos e que nossa religião é o Islã, mas não misturamos nossa religião com a nossa política e com as nossas atividades econômicas, sociais e civis — não mais. Mantemos nossa religião na mesquita. Depois que os serviços religiosos terminam, então, como muçulmanos, nos envolvemos em ações políticas, em ações econômicas e em ações sociais e civis. Nós nos envolvemos com qualquer um, em qualquer hora, em qualquer lugar e de qualquer forma que se possa imaginar para eliminar os males, os males políticos, econômicos e sociais que afligem os indivíduos da nossa comunidade.

A filosofia política do nacionalismo negro significa que o homem negro deve controlar as políticas e os políticos de sua comunidade, apenas isso. O homem negro na comunidade negra tem que ser reeducado nas ciências da política para que saiba o que a política deve lhe oferecer em retorno. Não joguem votos no lixo. Um voto é como uma bala. Não usem seus votos a menos que vocês tenham um alvo, e se o seu alvo não estiver ao seu alcance, guarde seu voto no bolso.

A filosofia política do nacionalismo negro está sendo ensinada nas igrejas cristãs. Está sendo ensinada na NAACP. 5 Está sendo ensinada nas reuniões do Core. 6 Está sendo ensinada nas reuniões do SNCC. 7 Está sendo ensinada em reuniões de muçulmanos. Está sendo ensinada onde não existe ninguém além de ateus e agnósticos. Está sendo ensinada em todos os lugares. O povo negro está cansado da abordagem enrolada, arrastada e sem firmeza com a qual tem sido tratada a conquista da nossa liberdade. Nós queremos liberdade agora, mas nós não vamos consegui-la cantando We shall overcome [Nós vamos vencer]. Nós temos que lutar para vencer.

A filosofia econômica do nacionalismo é pura e simples. Só quer dizer que devemos controlar a economia da nossa comunidade. Por que os brancos devem ter o controle de todas as lojas da nossa comunidade? Por que os brancos devem controlar os bancos da nossa comunidade? Por que a economia da nossa comunidade tem de estar nas mãos do homem branco? Por quê? Se um homem negro não pode abrir uma loja numa comunidade branca, me diga por que o homem branco deve ter a loja dele na comunidade negra? A filosofia do nacionalismo negro envolve um programa de reeducação da comunidade negra em relação à economia. Nosso povo deve ser conscientizado de que toda vez que retira seu dinheiro da própria comunidade e o gasta numa comunidade onde ele não reside, ele está ajudando a empobrecer cada vez mais a comunidade em que vive, e consequentemente a comunidade em que o dinheiro é gasto fica cada vez mais rica.

E depois vocês se perguntam por que onde vocês vivem é sempre um gueto ou uma favela. E no que nos diz respeito, não perdemos apenas quando gastamos fora da comunidade, mas o homem branco tem todas as lojas da comunidade sob seu controle; então, apesar de gastarmos na nossa comunidade, no fim do dia o gerente da loja tem que levar esse dinheiro para outra parte da cidade. Ele nos pegou numa armadilha.

Então a filosofia econômica do nacionalismo negro diz que em cada igreja, cada organização civil, cada ordem fraternal é chegada a hora de as pessoas se conscientizarem da importância de controlar a economia da própria comunidade. Se formos donos das lojas, se controlarmos os negócios, se estabelecermos indústrias em nossa comunidade, então estaremos chegando à condição de criar empregos para os nossos semelhantes. Uma vez que controlemos a economia da nossa comunidade, não teremos mais que boicotar ou fazer piquetes implorando para que algum branquelo do centro da cidade nos dê um emprego em seus negócios.

A filosofia social do nacionalismo negro apenas nos diz que devemos nos juntar para remover os males, os vícios, o alcoolismo, a toxicomania e outras mazelas que estão destruindo a fibra moral da nossa comunidade. Nós mesmos é que temos de elevar o nível da nossa comunidade, o padrão da nossa comunidade, para um patamar mais alto, tornar a nossa sociedade tão bela que fiquemos satisfeitos dentro de nossos próprios círculos sociais e não saiamos por aí tentando nos encaixar em um outro círculo social em que não somos bem-vindos. Assim, ao espalhar um evangelho como o nacionalismo negro, não se pretende que o homem negro reexamine o homem branco — você já o conhece —, mas se quer, isso sim, fazer o homem negro reexaminar a si mesmo. Não mude a cabeça do homem branco, você não pode mudá-la; e toda aquela coisa de apelar à consciência moral da América, a consciência da América faliu. Ela perdeu toda a sua consciência há muito tempo. O Tio Sam não tem consciência.

Ele não sabe o que são valores morais. Não tenta eliminar um problema porque é nocivo, ou porque é ilegal, ou porque é imoral: simplesmente o elimina quando ele ameaça a sua existência. Então, vocês estão perdendo tempo ao apelar à consciência moral de um homem falido como o Tio Sam. Se ele tivesse uma consciência, resolveria esse assunto sem que fosse preciso fazer mais pressões. Então, não é necessário mudar a cabeça do homem branco. Nós temos que mudar nossa própria cabeça. Vocês não podem mudar a opinião dele sobre nós. Nós temos que mudar nossas próprias opiniões sobre nós mesmos. Temos que olhar para nós mesmos com novos olhos. Temos que ver uns aos outros como irmãos e irmãs. Temos que nos juntar de forma calorosa para que possamos criar a harmonia e a união necessárias para que sejamos capazes de resolver esse problema nós mesmos. Como podemos fazer isso? Como podemos evitar a inveja? Como podemos evitar a suspeita e as divisões que existem na comunidade? Eu direi como.

Eu tenho observado como Billy Graham chega a uma cidade, espalhando o que ele chama de evangelho de Cristo, e que é, na verdade, apenas nacionalismo branco. É isso o que ele é. Billy Graham é um nacionalista branco; eu sou um nacionalista negro. Mas já que é a tendência natural dos líderes sentirem ciúmes e olharem com desconfiança e inveja para uma figura poderosa como Graham, como é possível para ele chegar a uma cidade e ter toda a cooperação de lideranças eclesiásticas? Não achem que por serem lideranças eclesiásticas eles não têm fraquezas que os tornem invejosos e ciumentos — não, todo mundo tem isso. Não é por acaso que, quando eles querem escolher um cardeal, como o papa lá em Roma, eles entram em uma sala fechada para que vocês não os vejam praguejando, brigando e agindo de forma imprópria.

Billy Graham chega para pregar o evangelho de Cristo. Ele prega o evangelho. Ele causa comoção em todo mundo, mas nunca pensou em começar uma nova igreja. Porque se ele tentasse começar uma nova igreja, todas as outras igrejas se posicionariam contra ele. Então, ele apenas vem para falar sobre Cristo e diz a todos que querem Cristo para irem a qualquer igreja onde Cristo esteja; e assim a igreja coopera com ele. Então, vamos aprender com ele.

Nosso evangelho é o nacionalismo negro. Não estamos tentando ameaçar a existência de nenhuma organização, mas estamos divulgando o evangelho do nacionalismo negro. Em qualquer lugar onde haja uma igreja que também esteja pregando e praticando o evangelho do nacionalismo negro, junte-se a essa igreja. Se a NAACP estiver pregando e praticando o evangelho do nacionalismo negro, junte-se à NAACP. Se o Core estiver divulgando e praticando o evangelho do nacionalismo negro, junte-se ao Core. Junte-se a qualquer organização que possua um evangelho para a elevação do homem negro. E quando vocês fizerem isso e observarem que ela está procrastinando ou fazendo concessões, vá embora porque isso não é nacionalismo negro. Nós encontraremos outra.

Desta forma, as organizações aumentarão em número de membros e também em quantidade e qualidade, e quando agosto chegar, é nossa intenção realizar uma convenção de nacionalistas negros que consistirá em delegados de todo o país que estejam interessados na filosofia política, social e econômica do nacionalismo negro. Depois que esses delegados se reunirem, nós faremos um seminário; nós promoveremos discussões, vamos escutar a todos. Queremos ouvir novas ideias, novas soluções e novas respostas. E daí, se acharmos apropriado, formaremos um partido nacionalista negro. E se for necessário formar um exército nacionalista negro, nós iremos formar um exército nacionalista negro. Será o voto ou a bala. Será a liberdade ou a morte.

Está na hora de vocês e eu descruzarmos os braços, não mais deixando que alguns senadores branquelos, branquelos do norte e branquelos do sul, reunidos lá em Washington, cheguem à conclusão de que eu e vocês deveríamos ter direitos civis. Irmãos e irmãs, sempre lembrem que, se não é preciso haver senadores, congressistas e proclamações presidenciais para dar a liberdade ao homem branco, não é necessário fazer leis ou proclamações ou decisões da Corte Suprema para dar a liberdade ao homem negro. Deixem que o homem branco saiba que se aqui é o país da liberdade, que seja o país da liberdade; e que se não é o país da liberdade, mudem-no.

Nós vamos trabalhar com qualquer um, em qualquer lugar, que esteja verdadeiramente interessado em enfrentar o problema, de forma não violenta, caso o inimigo seja não violento, mas de forma violenta, quando o inimigo for violento. Nós iremos cooperar com vocês no movimento pelo registro de eleitores, estaremos junto com vocês nas greves dos aluguéis, trabalharemos com vocês nos boicotes às escolas; eu não acredito em qualquer forma de integração; eu não estou preocupado com isso, pois eu sei que vocês não vão consegui-la; e não vão consegui-la porque têm medo de morrer; vocês devem estar prontos para morrer se tentarem se impor ao homem branco, porque ele será tão violento quanto aqueles branquelos em Mississipi e aqui em Cleveland. Mas nós ainda trabalharemos com vocês nos boicotes às escolas porque somos contra um sistema educacional segregado. Um sistema escolar segregado produz crianças que, quando se formam, se formam com mentes aleijadas. Mas isso não quer dizer que uma escola é segregada porque é toda negra. Uma escola segregada significa uma escola controlada por pessoas que não têm nenhum interesse verdadeiro nela.

Deixem-me explicar o que eu quero dizer. Um distrito ou comunidade segregada é uma comunidade em que as pessoas vivem, mas cuja política e economia são controladas por gente de fora. Nunca se referem à seção branca da cidade como uma comunidade segregada. Mas é a seção completamente negra que é comunidade segregada. Por quê? O homem branco controla a própria escola, o próprio banco, a própria economia, a própria política, controla tudo e qualquer coisa, a própria comunidade; mas ele também controla a de vocês. Quando se está sob o controle de um outro, se está segregado. Eles sempre lhes dão o pior que há para oferecer, mas isso não quer dizer que vocês são segregados se vocês possuem suas próprias coisas. Vocês têm que controlar o que é seu. Da mesma forma que o homem branco controla o que é dele, vocês têm que controlar o que é de vocês.

Sabem qual é a melhor forma de acabar com a segregação? O homem branco tem mais medo da separação do que da integração. A segregação significa que ele se separa de vocês, mas não o suficiente para que vocês saiam da jurisdição dele; já a separação significa que vocês foram embora. E o homem branco irá preferir integrar mais rápido a deixar que vocês se separarem. Então, nós trabalharemos com vocês contra um sistema educacional segregado porque ele é criminoso, porque é totalmente destrutivo, em qualquer forma imaginável, para as mentes das crianças que foram expostas a essa forma de educação deformadora.

Por último, mas não menos importante, gostaria de falar um pouco sobre essa grande controvérsia a respeito dos fuzis e das armas de fogo. A única coisa que eu disse foi que, em áreas onde o governo se mostrou indisposto ou incapaz de defender as vidas e as propriedades dos negros, é hora de os negros se defenderem. O segundo artigo das emendas constitucionais concede a vocês e a mim o direito de possuir um fuzil ou uma arma de fogo. É legal pela Constituição ter um fuzil ou uma arma de fogo. Isso não quer dizer que vocês irão comprar um fuzil e formar batalhões à caça de caras brancos, apesar de que vocês estariam no seu direito — eu quero dizer, vocês estariam justificados; mas isso seria ilegal e não fazemos nada ilegal. Se o homem branco não quer que o homem negro compre fuzis e armas de fogo, então que deixe o governo fazer o seu trabalho.

Isso é tudo. E não deixe que o homem branco se aproxime de você e pergunte o que acha do que Malcolm diz — ora, seu velho Pai Tomás 8 —; ele nunca perguntaria nada a você se não soubesse que você diria “Amém!”. Não, ele está transformando você em um Pai Tomás. Então, isso não quer dizer que devamos formar clubes de rifles e sair caçando pessoas, mas agora é a hora, em 1964, se você é um homem, de fazer o homem branco saber disso.

Se ele não fizer seu trabalho de administrar o governo e nos prover com a proteção que os nossos impostos deveriam cobrir, já que ele gasta todos aqueles bilhões no orçamento de defesa, ele certamente não poderá ficar chateado se nós pagarmos 12 ou 15 dólares por uma arma de um tiro só ou um revólver. Eu espero que vocês tenham entendido. Não saiam atirando nas pessoas, a não ser quando, irmãos e irmãs, e especialmente os homens deste auditório — alguns de vocês portando Medalhas de Honra do Congresso, com ombros dessa largura, peitorais grandes e músculos grandes desse jeito —, quando eu e você nos sentarmos e lermos sobre o bombardeio de uma igreja e o assassinato a sangue-frio não de adultos, mas de quatro menininhas que estavam rezando para o mesmo Deus para quem o homem branco lhes ensinou a rezar, e então eu e vocês virmos o governo ir lá e não conseguir encontrar os culpados.

Ora, esse homem… ele consegue achar Eichmann escondido na Argentina. Se dois ou três soldados americanos, que estão se metendo em negócios alheios no Vietnã do Sul, são mortos, ele mandará navios de guerra, metendo o nariz onde não é chamado. Ele queria mandar tropas para Cuba e impor o que ele chama de eleições livres — esse velho branquelo não tem eleições livres no próprio país.

Não, se você nunca me vir de novo na sua vida, se eu morrer pela manhã, eu morrerei dizendo uma única coisa: o voto ou a bala, o voto ou a bala.

Se um negro em 1964 ainda tem que se sentar e esperar algum senador branquelo obstruir a votação da legislação dos direitos de negros, ora, você e eu devemos nos enforcar de vergonha. Se vocês falam de uma marcha para Washington em 1963, vocês ainda não viram nada. Há algo ainda maior em 1964.

E desta vez as coisas não serão como no ano passado. Eles não vão cantar We shall overcome. Eles não irão com os seus amigos brancos. Eles não vão usar faixas já pintadas para eles. Eles não irão com passagens de ida e volta. Eles vão usar a passagem só de ida. E se eles não querem esse exército não violento chegando por lá, então diga a eles para acabar com a obstrução parlamentar.

Os nacionalistas negros não vão esperar. Lyndon B. Johnson é o líder do Partido Democrata. Se ele é a favor dos direitos civis, que ele vá ao Senado semana que vem e declare isso. Que ele vá lá agora e declare isso. Que ele entre lá e denuncie a seção sulista do seu partido. Que ele entre agora e tome uma posição moral — agora, e não mais tarde. Digam isso para ele agora, não esperem o período eleitoral. Se ele esperar muito, irmãos e irmãs, ele será responsável por ter deixado surgir um quadro neste país que criará um clima no qual brotarão as sementes de uma vegetação diferente de tudo o que essa gente jamais sonhou. Em 1964, é o voto ou a bala.

Obrigado.

 

 

 

notas
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1 Dixiecrata é o apelido dado aos democratas dos estados do Sul, conhecidos coletivamente como Dixie. Os dixiecratas eram notórios adeptos da defesa intransigente da segregação racial que predominava nessa região do país (N. do T.).

2 Senioridade, nas normas do Congresso americano, significa que quanto mais tempo os congressistas têm na instituição, mais alto sobem na hierarquia dos diferentes comitês e subcomitês legislativos. Esse sistema beneficiava particularmente os dixiecratas, que, com a exclusão do voto negro, largamente praticada no Sul, e a defesa do status quo racial, se perpetuavam em suas cadeiras na Câmara e no Senado (N. do T.).

3 “Nós vamos vencer”. Canção que se tornou um hino do movimento pelos direitos civis (N. do T.).

4 Algo como “Mesquita Muçulmana S.A.” (N. do T.).

5 National Association for the Advancement of the Colored People (Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor), organização ativista pelos direitos dos negros, fundada em 1909 (N. do T.).

6 Congress for Racial Equality (Congresso pela Igualdade Racial), fundado em 1942 (N. do T.).

7 Student Nonviolent Coordinating Committee (Comitê Estudantil de Coordenação Não Violenta), fundado em 1960 (N. do T.).

8 Pai Tomás (Uncle Tom) é um termo ofensivo que designa um negro que apresenta uma subserviência vil em relação aos brancos (N. do T.).

 


Nuestra América e EUA [CD-ROM] / Coordenação Cecília Azevedo… [et al.]. Rio de Janeiro : Editora FGV, 2009.

Fonte | Disponível em: <www.americanrhetoric.com/speeches/malcolmxballot.htm>.


 

 

 

 

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