a Terra é azul… que mundo é esse? parte 1: o mundo contemporâneo

A TERRA AZUL [1] … QUE MUNDO É ESSE?
Parte 1. o mundo contemporâneo (ou: depois do fim do mundo)

Euler Sandeville Jr.
versão inicial 2005/jan 2010/ 21/02/2016 a 05/03/2016. Última atualização: 05/03/2016

 


cite este artigo
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 1. o mundo contemporâneo (ou: depois do fim do mundo)“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/04/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse/ acesso em DIA/MÊS/ANO.


 

Chegada de The Beatles no Kennedy Airport, na Cidade de Nova Iorque, em 7 de fevereiro de 1964, United Press International, photographer unknown.
BEATLES. Photograph, United Press International. [1964.] Location: NYWTS – BIOG–Beatles–Singers Reproduction Number: LC-USZ62-111094 Note: No copyright found; checked by staff December 2000. Collections of the Library of Congress, disponível em lcweb2.loc.gov/pnp/cph/3c10000/3c11000/3c11000/3c11094r.jpg↑ acesso em 27/02/2016.

O mundo contemporâneo; são, de fato, muitos mundos. Muitas temporalidades entrecruzando-se, esquecendo-se, refazendo-se como momento histórico. E passando muito rápido. Este texto situa o mundo contemporâneo, para efeito deste estudo, desde o fim da Segunda Guerra (se é que terminou de fato). E tem sentido, dadas as transformações que, na duração de uma vida (hoje, lá se vão coisa de 70 anos), deram origem a mundos que nunca existiram nem poderiam ter existido antes deste período.

No entanto, seria igualmente válido situá-lo nas dobraduras do século XVIII e XIX, com eventos igualmente dramáticos, como foram a revolução francesa e estadunidense e a industrialização. De modo que adotamos um contemporâneo (pós Segunda Guerra) dentro de um contemporâneo alargado (desde a segunda metade do século XVIII ou primeira metade do século XX). Mas o que muda nesse contemporâneo, e ainda está em curso, senão em exacerbação? A própria natureza e sentido do mundo.

O tempo da colheita e da plantação, das estações, da variação do dia, de uma eternidade entrevista em uma natureza que explicitava a existência de um mundo sobrenatural (para além do tempo a eternidade), deixa de ser o que demarca nosso entendimento do mundo. A industrialização e urbanização rápidas, um mundo de técnicas e artefatos comunicacionais e de produção e consumo sem precedentes, sob a égide do relógio, o tempo abstrato mensurável da produção, a subordinação do pensamento, do corpo, do fazer, da natureza, à eficiência e ao valor econômico, colocam nossas formas de relação interpessoal e construção de valores e conhecimentos nas esferas de produção-consumo.

Não deixa de ser interessante que, nesse mundo imediato, nesse mundo solúvel, o tempo e o espaço da existência da vida e do cosmo, absolutamente presas da matéria e do acaso pela lógica científica e produtiva, dilatam-se a escalas e quantidades quase infinitas e plásticas, impossíveis de se comparar com a escala humana, quer da vida, quer do corpo, ou mesmo do tempo social. É um mundo cada vez mais imediato, em todos os sentidos, e se o conhecimento de suas causas se mostra mais fugidio em escalas de tempo imensuráveis, sua recusa de qualquer transcendência o torna tão imediato quanto é, em nossa experiência, a matéria. O que não exclui a religiosidade, o misticismo e o sincretismo, podendo mesmo exacerbá-los.

Como em nenhuma sociedade antes que se tenha notícia, vivemos e aprendemos no afastamento e recusa radical de uma compreensão do mundo que seja mediada pela eternidade e pela natureza, ainda que persistam formas de religiosidade e superstição profundamente difundidas no âmago dessa cultura. Mas não são elas que moldam de modo predominante nossa compreensão (se considerarmos que a compreensão se expressa na prática decorrente), e sim um aqui e agora da experiência e das esperanças cada vez mais próximos e intensos, cada vez mais finitos, mediados por formas materialistas e hedonistas de consumo e vida, de pensamento e ação, de realização de curto prazo, senão imediata. Essa condição está apoiada, e ancorada, em uma banalização da linguagem corrente e de manipulação técnica das bases da vida e da matéria, que ganham autonomia do universo de valores e da ética.

Obviamente nosso contemporâneo não começou no segundo pós-guerra, ou na virada do XIX, e heranças milenares ainda se fazem ouvir de muitas formas. Mas é a partir da data simbólica de 1945 que o observo, para favorecer a organização dos debates. De qualquer modo, o que são 500, 600 anos nessa aventura humana? Não nos esqueçamos, estes últimos 200 anos, talvez 70 anos, nos colocaram diante de situações sem paralelo com qualquer outro momento da humanidade.

A interrogação desse tempo tão recente, que reivindica uma autoridade voraz sobre todos os outros, seria já um imenso desafio. Não, não seria suficiente para mudar rumos dramáticos que vamos construindo com nossa tecnologia e proximidade, como se as engrenagens que pusemos em movimento agora nos ponham em movimento. Mas colocar em discussão esse caminho talvez faça ver que não tem nada de inexorável, são decisões, escolhas que fomos e vamos tomando, como os que nos antecederam tomaram as que nos trazem até aqui.

O que estamos vendo, imersos nesse redemoinho? Podemos também perguntar: o que, pela proximidade e habitualidade, vendo já não percebemos? Ou seja, o que, diante de nós, não estamos vendo? O que já está em gestação, já está em acontecimento ainda oculto a nossos olhos? Podemos, depurando a capacidade de observação, por seus movimentos e sombras que nesse mover-se projeta, discernir as formas que em breve definirão nosso cotidiano de modo que hoje não aceitaríamos? Este texto em parte é sobre isso. Posso resumir sobre os objetos, formas, comportamentos, que ainda não existem: já estão sendo constituídos.

O LHC tem 27 quilômetros de circunferência em um túnel a 100 metros de profundidade, sob fronteira entre a Suíça e a França, a distância percorrida por um feixe em 10 horas equivale a uma ida e volta a Netuno, com os prótons chegando a atingir 99,92992% da velocidade da luz no momento da colisão, cuja temperatura é 1 milhão de vezes mais quente que no centro do Sol. Começou a ser construído em 1998 com a colaboração de mais de 100 países e foi inaugurado em 2008. “O Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN), em Genebra, anunciou neste domingo a reabertura do LHC (Large Hadron Collider), uma enorme máquina subterrânea onde dois feixes de partículas de altas energias colidem a velocidades próximas da da luz para tentar reproduzir o que se passou a seguir à criação do Universo, há 13.800 milhões de anos”. Disponível em publico.pt/ciencia/noticia/maior-acelerador-de-particulas-do-mundo-retoma-actividade-1691407↑ acesso em 27/02/2016.

______________________
notas
1 Atualização parcial do texto base do memorial apresentado na Livre Docência em 2010, elaborado a partir de reelaboração crítica de texto de 2005.

 

ir para próxima página

 


como citar material desta página:
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 1. o mundo contemporâneo (ou: depois do fim do mundo)“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/04/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse/ acesso em DIA/MÊS/ANO.

[para citar este artigo conforme normas acadêmicas, copie e cole a referência acima (atualize dia, mês, ano da visita ao sítio)]


núcleo de estudos da paisagem
a natureza e o tempo (o mundo)
uma proposta de euler sandeville

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s