a Terra é azul… que mundo é esse? parte 5. o lado sombrio

A TERRA AZUL [1] … QUE MUNDO É ESSE?
Parte 5. o lado sombrio
Euler Sandeville Jr.
versão inicial 2005/jan 2010/ 21/02/2016 a 05/03/2016. Última atualização: 05/03/2016

 


cite este artigo
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 5. o lado sombrio“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse-parte-5-o-lado-sombrio/ acesso em DIA/MÊS/ANO.


 

Alguns ícones dessa nova era, ao abrir-se do novo século, já são bastante sombrios. Sempre restaria a desculpa de que se referem a processos do passado, de um problema herdado do século anterior. Bem, isso só confirmaria duas coisas, primeiro a importância de nossas heranças e do que legaremos, segundo, que são ainda um fato bem presente.

Novos muros se constroem, como aquele que cerca Israel [21] ou a censura da internet chinesa amplamente noticiada no final da primeira década do século, ou ainda as milícias civis (que realidade humana triste essa) que procuram impedir, pela força, a entrada de imigrantes nos EUA, aliás, um pais que deve sua construção a imigrantes.

“As Nações Unidas estimam que aproximadamente 224.5 mil pessoas atravessaram o Mediterrâneo rumo à Europa. As ilhas gregas foram o ponto de chegada para quase 124.2 mil refugiados e migrantes, a Itália para 98.5 mil, Espanha para 1.7 mil e Malta recebeu 94 pessoas, segundo os dados oficiais destes países. (…) A Síria é o ponto de partida e nacionalidade de dois terços dos refugiados que conseguiram chegar à Grécia. Segue-se o Afeganistão (20%) e o Iraque (5%)”. Grécia é o primeiro destino dos refugiados que cruzam o Mediterrâneo [7 Agosto, 2015] Disponível em infogrecia.net/2015/08/grecia-e-o-primeiro-destino-dos-refugiados-que-cruzam-o-mediterraneo/ acesso em 15/02/2016

Essa realidade é muito próxima. Basta ver que imigrantes são hostilizados em nossas cidades, acontecendo aqui mesmo em São Paulo, no Parque Dom Pedro, violência sob pretexto de xenofobia contra imigrantes haitianos, vindos de onde o Brasil capitaneia uma força de paz da ONU. Ainda em 2015 seis haitianos foram baleados no Glicério, sendo que ouvi pessoalmente relato de Patrick Dieudanne dizendo que não receberam atendimento adequado em unidades de saúde e foram mandados para casa com balas e dor, antes de conseguirem ser atendidos no Hospital Tatuapé.

Por outro lado, essas e outras agruras e brutalidades são convertidas em cultura de massas, amplamente expostas aos nossos olhos pelos meios de circulação e produção de informação, uma experiência contínua de choque que se torna necessário. Mas necessário para quê? Para a inquietação de nossa consciência em sua acomodação. Esta frase deveria ter sua atenção, uma reflexão, não é óbvia, é dialética, ou deveria ser.

Se observarmos algumas fotos premiadas, veremos a repetição continuada de um drama contemporâneo, e algumas dessas fotos são de amplo conhecimento. Algumas, como as duas primeiras (figuras 13 e 14), chegam a ter uma temática muito semelhante ainda que com resolução fotográfica muito distinta. Não deixa de ser interessante o campo invertido de ambas.

A foto do ano foi para o australiano Warren Richardson, com uma imagem que mostra um bebê de família migrante sendo passado por baixo de uma cerca de arame farpado na fronteira entre Hungria e Sérvia, em agosto de 2015. A cena também levou o 1º lugar na categoria “Notícias Factuais”. Não menciona restrição de direito autoral ou de reprodução. Disponível em g1.globo.com/mundo/noticia/2016/02/world-press-photo-imagem-de-bebe-migrante-sob-cerca-e-eleita-foto-do-ano.html acesso em 04/03/2016.

Foto de Carol Guzy premiada com o Prêmio Pulitzer em 2000. Realizada em 03 de março de 1999, retrata o garoto Agim Shala, de 2 anos de idade, passado para sua família no campo de refugiados de Kosovo em Kukes, Albânia. Não menciona restrição de direito autoral ou de reprodução. Disponível em http://www.npr.org/sections/goatsandsoda/2015/09/04/437582231/an-image-of-a-child-can-change-the-way-we-see-the-world acesso em 04/03/2016

Essas duas fotos acima, entre outras, são antecedidas por uma outra foto de criança. Não raro associamos o futuro a uma criança, o que talvez as torne mais do que a denúncia ou registro de um presente perverso: podem ser o sinal subjetivo de um futuro em gestação.

A icônica e trágica imagem de uma menina vietnamita de 9 anos, Phan Thị Kim Phúc, fugindo das explosões de napalm em 08 de junho de 1972 (figura 15) rodou o mundo. A fotografia foi tirada por Huynh Cong Ut da agência Associated Press e recebeu o Prêmio Pulitzer de 1973. O sangue frio e indiferença ficam realçado pelo soldado pelo contraste corpóreo que expressa a dor das crianças e o controle, que podemos supor tenso e em contradição íntima, dos soldados.

Essa foto escandalizou o mundo, em um tempo em que as imagens do Vietnã circulavam quase em tempo real, expondo a injustiça da guerra com sua violência cruel e sem limites, reforçando movimentos pacifistas e por direitos humanos. Mas a imagem não deixa de ser transformada em ícone e torna-se midiática, para além do sofrimento da menina queimada, que é içada em sua tragédia a uma imprevisível celebridade quase pop, à própria revelia.

Phan Thị Kim Phúc, também conhecida como Kim Phúc (Trảng Bàng, Vietnã, 2 de abril de 1963), então com de 9 anos. Em 8 de junho de 1972, fugia durante bombardeios de Napalm pelos EUA na Guerra do Vietnã, na Rota 1 perto de Trang Bang, depois de um ataque aéreo contra suspeitos de esconderijos vietcongues. Fotógrafo Huynh Cong Ut (tinha 21 anos) da agência Associated Press e recebeu o World Press Photo de 1972 e o Pulitzer de Reportagem Fotográfica de 1973. Não menciona restrição de direito autoral ou de reprodução. Disponível em npr.org/sections/goatsandsoda/2015/09/04/437582231/an-image-of-a-child-can-change-the-way-we-see-the-world, acesso em 04/03/2016.

O que você lerá a seguir, deve fazê-lo com o mesmo nó na garganta que provavelmente sentiu ao ler sobre a bomba, se ao ler se viu, não no porta-aviões, mas na cidade que ainda havia pouco amanhecera:

Em 1972, os americanos lançaram uma bomba de napalm em meu povoado, no sul do Vietnã. Um fotógrafo, Nick Ut, tirou uma foto minha fugindo do fogo, a foto que hoje é tão famosa. Eu me lembro que tinha 9 anos, era apenas uma menina. Naquela noite, nós do povoado havíamos ouvido que os vietcongues estavam vindo e que eles queriam usar a vila como base. Então, quando já era dia, eles vieram e iniciaram os combates no povoado. Nós estávamos muito assustados. Eu me lembro que minha família decidiu procurar abrigo em um templo, porque nós acreditávamos que lá era um lugar sagrado. Nós acreditávamos que, se nos escondêssemos lá, estaríamos a salvo. Eu não cheguei a ver a explosão da bomba de napalm; só me lembro que, de repente, eu vi o fogo me cercando. De repente, minhas roupas todas pegaram fogo, e eu sentia as chamas queimando meu corpo, especialmente meu braço. Naquele momento, passou pela minha cabeça que eu ficaria feia por causa das queimaduras, que eu não ia mais ser uma criança como as outras. Eu estava apavorada, porque de repente não vi mais ninguém perto de mim, só fogo e fumaça. Eu estava chorando e, milagrosamente, ao correr meus pés não ficaram queimados. Só sei que eu comecei a correr, correr e correr. Meus pais não conseguiriam escapar do fogo, então eles decidiram voltar para o templo e continuar abrigados por lá. Minha tia e dois de meus primos morreram. Um deles tinha 3 anos e o outro só 9 meses, eram dois bebês. Então, eu atravessei o fogo.
Phan Thị Kim Phúc.
Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Phan_Th%E1%BB%8B_Kim_Ph%C3%BAc↑ acesso em 04/03/2016.

Os anos passaram-se e quem quer saber da menina coreana, hoje na casa dos 53 anos (em 2016). A foto permanece e chega mesmo a construir um conjunto de significados que se sucedem em nossas capas de jornal, fazendo posar juntos civis e militares em sua estranha diferença. Mais do que isso, passamos a reproduzir a imagem.

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notas
1 Atualização parcial do texto base do memorial apresentado na Livre Docência em 2010, elaborado a partir de reelaboração crítica de texto de 2005.

21 O muro de Berlim tinha “apenas” 155 km de extensão e 3,60 metros de altura, já “O Muro da Cisjordânia é uma muralha que separa Israel da Cisjordânia, realizada pelo governo israelense. Uma pequena parte do muro (cerca de 20%) coincide com a antiga Linha Verde; os 80% restantes situam-se em território cisjordaniano, onde adentra até 22 km, em alguns lugares, para incluir colonatos de Israel densamente povoados. Com extensão de 350 km, consiste numa rede de vedações com trincheiras rodeadas por uma área de exclusão média de 60 metros (90%) e por paredes de concreto de até 8 metros de altura (10%). Em certos lugares, como na região da cidade palestina de Qalqiliya, o muro chegaria à altura de oito metros. Em alguns pontos, a construção tem 45 metros de largura; em outros, pode chegar a 75 ou 100 metros. A muralha deve conter também dispositivos eletrônicos capazes de detectar infiltrações, fossas antitanques e pontos de observação e patrulha” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Muro_da_Cisjord%C3%A2nia↑, acesso em agosto de 2005).

 


como citar material desta página:
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 5. o lado sombrio“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse-parte-5-o-lado-sombrio/ acesso em DIA/MÊS/ANO.

[para citar este artigo conforme normas acadêmicas, copie e cole a referência acima (atualize dia, mês, ano da visita ao sítio)]


núcleo de estudos da paisagem
a natureza e o tempo (o mundo)
uma proposta de euler sandeville

 

 

 

 

 

 

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