três mapas do mundo. mapa do saltério (c. 1265), mapa de paolo toscanelli (1474) e nosso norte é o sul (1943)

TRÊS MAPAS DO MUNDO. MAPA DO SALTÉRIO (c. 1265), MAPA DE PAOLO TOSCANELLI (1474) E NOSSO NORTE É O SUL (1943)
Euler Sandeville Jr.
São Paulo, 01 de maio de 2017, 09 de março de 2020

 

Muitas vezes olhamos as coisas e não as vemos de fato, porque achamos que já sabemos. Queria exemplificar isso com três mapas, extraordinários. Como você poderá notar, as imagens reproduzidas nesta página têm um sentido especial, uma significação. São representações do mundo, em diferentes épocas da história, compondo discursos e indagações humanas.

Serão apresentadas aqui imagens de anos tão díspares (1265, 1474 e 1943), que a princípio nada têm em comum, mas através das quais podemos indagar e ponderar a natureza do nosso próprio tempo, da nossa época em vertigem e das que nos antecederam longamente, talvez às vésperas de novas transformações sem precedentes como nos encontramos.

O mapa abaixo integra um saltério do século XIII. A beleza desse mapa, de apenas 8,9×12,4 cm, de uma enorme riqueza de detalhes mostrando o cuidado em sua composição, só pode ser apreendida se o considerarmos em sua complexidade. Não é uma imagem no sentido de ícone de adoração, como havia tantas na época, embora um saltério tenha a finalidade devocional.

Este não é o caso desta imagem reproduzida abaixo porque, provavelmente sendo também isso, é bem mais do que isso. Trata-se de uma sofisticada representação de mundo. Ela nos ajuda a entender que o mundo em que essas pessoas viviam, certamente cheio de agruras, como você há de reconhecer, é e não é também o nosso.

Mapa do Saltério, abadia de Westminster, 1265 (8,9 x 12,4 cm)

 

Nesse mapa de c. 1265, na parte superior, a leste, vemos uma figura simbolizando o Cristo, tendo em sua mão esquerda uma representação do mundo, conforme convenções medievais (o mapa TO, assim chamado porque inscreve-se em um círculo indicado pelo O, e o T representa a separação entre Europa, Ásia e África, tendo no centro Jerusalém). Logo abaixo dele está representada a origem da humanidade, com Adão e Eva na circunferência próxima do Cristo e os quatro rios do jardim no Éden. Na parte inferior do mapa, que se orienta ao poente, o qual muitas vezes representa a morte, os dragões, submetidos a Cristo, mas à espreita dos incautos.

Ao contrário da convenção que se nos tornou familiar, como se fosse natural (e não é, o norte desenhado na vertical é apenas uma convenção nossa), até o século XVI muitos mapas não estavam orientados em seu eixo vertical no sentido norte-sul, mas no leste oeste (como neste acima) ou no sul-norte.

A representação do mundo conhecido nesse mapa é de uma riqueza e sofisticação extraordinária; não se trata apenas de uma carta de localização no espaço com muitos pontos desconhecidos, mas de localização no tempo (passado e futuro), na história, na eternidade, na própria natureza do mundo.

A título de exemplo, à direita chegamos aos limites da África, então praticamente desconhecidos ao sul, na região tórrida que se duvidava poder ser habitada, e os encontramos ocupados por criaturas que povoavam o imaginário medieval. No centro, como nas cartas do período, Jerusalém. Ao norte, à esquerda, nos limites da Ásia, Gog e Magog, mencionados no Apocalipse, com uma considerável liberdade de interpretação, pois todos esses elementos mesclam tradições cristãs e tradições clássicas.

O segundo mapa é uma reconstituição do mapa do florentino Paolo dal Pozzo Toscanelli (Florença, 1397 — Florença, 1482). Tratar-se de uma reconstituição já é um elemento que nos deve chamar a atenção. Seu propósito e arrojo é inteiramente diverso.

Em 1474 escreveu uma carta, acompanhada de um mapa, ao seu correspondente português Fernão Martins, cónego da Sé de Lisboa, fazendo, através deste chegar a sua proposta ao Rei D. Afonso V. O seu projecto era, basicamente, o de navegar para ocidente e assim descobrir a Ásia pelo Oeste. O original desta carta nunca foi encontrado, mas sabe-se da sua existência pelo próprio Toscanelli, que depois a transcreveu e enviou a Cristóvão Colombo, a acompanhar a sua sugestão de viajar para Oeste para atingir a Ásia.
Disponível em pt.wikipedia.org/wiki/Paolo_dal_Pozzo_Toscanelli e en.wikipedia.org/wiki/Paolo_dal_Pozzo_Toscanelli acesso em 12/10/2019.

O que há de extraordinário na reconstituição desse mapa, como em outros que circularam no período, é que um erro de cálculo na circunferência da Terra quase sobrepunha a Ásia à América, como sabemos hoje. Registros como esse mostram o longo processo de conhecimento do mundo, e as diferentes significações que essas representações vão cumprindo para diferentes projetos. Não só isso, um mundo que nos parece óbvio, na verdade, guarda uma história, formas de olhar e projetos que se transformam, revelando e apagando significados.

Reconstituição do Mapa de 1474 de Paolo dal Pozzo Toscanelli (Florença, 1397 — Florença, 1482), inserindo a América. Em 1474 escreveu uma carta, acompanhada de um mapa, ao seu correspondente português Fernão Martins, cónego da Sé de Lisboa, fazendo, através deste chegar a sua proposta ao Rei D. Afonso V. O seu projecto era, basicamente, o de navegar para ocidente e assim descobrir a Ásia pelo Oeste. O original desta carta nunca foi encontrado, mas sabe-se da sua existência pelo próprio Toscanelli, que depois a transcreveu e enviou a Cristóvão Colombo, a acompanhar a sua sugestão de viajar para Oeste para atingir a Ásia. Disponível em pt.wikipedia.org/wiki/Paolo_dal_Pozzo_Toscanelli e en.wikipedia.org/wiki/Paolo_dal_Pozzo_Toscanelli acesso em 12/10/2019.

 

Os mapas aqui reproduzidos revelam a disparidade e a beleza das nossas representações e indagações do mundo, de suas finalidades e razões de ser, das disputas, necessidades e possibilidades que encerram essas razões e visões. Muitas vezes brutais, sem dúvida, como na cartografia da guerra e da injustiça, mas também muitas vezes cheias de esperança e poesia.

Quantas vezes não resvalamos, quase sem perceber as transições e mesclas contraditórias, entre essas duas condições que gostaríamos opostas? Mas, no frigir dos dias, nem sempre se revelam assim, embora sempre se mostrem cheias de justificação. Mostram também o quanto nossa suposta familiaridade ou distanciamento de outros tempos pode nos manter ainda hoje diante de um mundo que pensamos conhecido e estável, mas que pode não ser como se nos apresenta.

Isso nos remete à próxima imagem.

Torres Garcia, mapa da América, 1943

 

O terceiro mapa é um desenho do extraordinário artista uruguaio, Torres Garcia, seu conhecido mapa da América, de 1943 (abaixo), no qual afirmava: “O nosso Norte é o Sul”. No mapa anterior, meio milênio mais antigo, não havia inversão do norte; pelo contrário, sua orientação nos pareceria a habitual. Neste, Torres Garcia opera uma inversão das convenções aceitas.

Sua questão não é cosmográfica e sua necessidade de explicar e interpretar o mundo não passa por uma condição transcendente. Sua atitude é claramente política, talvez sua devoção. Outros tempos, outras ideias sobre o mundo. O desenho, portanto, bem mais do que uma simples ilustração, é um manifesto sobre as condições culturais e sociais de nosso tempo, e das disputas em curso, que de lá para cá apenas se aprofundaram.

É fácil imaginar, olhando de onde olhamos, familiarizados com as ilusões de uma história revista de frente para traz (do presente para o passado), que pareceriam sucederem-se em direção aos valores do mundo que imaginamos conhecer. Mas seria possível, e seria desejável se for possível, imaginá-los não como uma sucessão que nos alcança e nos explica no presente e na modernidade, mas como um rico acervo de indagações e experiências humanas que, cada um a seu modo, representa uma denúncia em relação ao outro, em suas motivações e certezas?

Vistos em sua complexidade própria, cada um em seu tempo, poderíamos supor que, sem um olhar evolutivo, cada um poderia confrontar em algo todos os demais. Talvez, nenhum deles dê plenamente conta do mundo que representam, embora o façam plenamente em relação ao propósito pelo qual o representam. Ainda que possamos nos sentir mais ou menos próximos ou distantes deles, realizam-se de modo extraordinário nessa aventura em que existimos no mundo, na objetividade e no mistério da própria existência.

Trata-se, como as três imagens deixam claro, de outros mundos, estranhos entre si. Não são apenas as referências geográficas que mudaram, nem apenas as convenções de representação e os conhecimentos técnicos e filosóficos, nem tampouco a percepção do belo e da sociabilidade, ou das implicações políticas, econômicas ou espirituais. Neles, foi a própria natureza do mundo mudou, e as questões que nos colocam já são outras.

Porém, ainda que mudando os meios, as razões e modos de indagação, a necessidade de nos localizarmos significativamente na existência permanece. Esses mapas (sendo um deles uma reconstituição) e outras representações e testemunhos imersos em uma longa duração nos ajudam, juntos, não para o confronto entre esses tempos como se fossem uma sucessão para a modernidade ou para dotar a história de significado para o presente, o que questiono; mas, indo em uma direção totalmente diversa dessa, por sua diferença e riqueza, contribuem para o confronto e consciência de nosso próprio habitar o mundo.

 

 


como citar:

SANDEVILLE JR., Euler. “Três mapas do mundo. Mapa do Saltério (C. 1265), Mapa De Paolo Toscanelli (1474) e Nosso Norte é o Sul (1943)”. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/tres-mapas/ acesso em DIA/MÊS/ANO.

[para citar este artigo conforme normas acadêmicas, copie e cole a referência acima (atualize dia, mês, ano da visita ao sítio)]

 

 

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Foto Euler Sandeville, Folha, detalhe, 2009.
Folha, detalhe. Foto de Euler Sandeville, 2009.

 

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