um mundo ao acaso

um mundo ao acaso
Euler Sandeville Jr.
versão inicial 07/01/2016. Última atualização: 16/02/2016
notas no final da página

 

para citar este artigo:
SANDEVILLE JR., Euler. “Um mundo ao acaso”. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 16 de fevereiro de 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2019/09/17/um-mundo-ao-acaso/ /com acesso em XX/XX/201X.

 

A natureza e o tempo. De que se trata?

Caspar David Friedrich (1774-1840), Caminhante Sobre o Mar de Névoa. By Caspar David Friedrich – Web Gallery of Art, Public Domain [commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1037098 acesso em 09/03/2016]

1. tudo se move

Vivemos em um mundo de incertezas. Nada está parado, toda informação deve ser substituída rapidamente. Representações de um mundo estático já não se sustentam. O norte, usado como metáfora para o obter um direcionamento – “você precisa de um norte” – já não é tão certo. O norte magnético, para onde as bússolas apontam, já foi um instrumento fundamental de navegação e orientação. Localizado pela primeira vez em 1831, deslocamentos são registrados desde 1904 a 15 km por ano, acelerando-se a partir de 1989, e atualmente pode estar deslocando-se cerca de 60 quilômetros por ano em direção à Rússia 1. Não apenas isso, não apenas o norte está em movimento.

Ilustração feita pelo geógrafo Antonio Snider-Pellegrini, em 1858 (Opening of the Atlantic Ocean), ilustrando a justaposição das margens africana e americana do Oceano Atlântico, um precursor da Teoria da Deriva Continental. Disponível em pt.wikipedia.org/wiki/Deriva_continental acesso em 12/02/2016.

 

Se fosse possível fixar o ponto absoluto Continuar lendo

MUNDUS NOVUS: APRESENTAÇÃO

OS TEMPOS E OS MUNDOS: SOBRE A ANTIGUIDADE DOS MUNDOS

 

A LONGA ANTIGUIDADE DOS MUNDOS IV
MUNDUS NOVUS [1] (1055 a 1749)
A Longa Idade Média e a nova antiguidade
A invenção da Europa. Do sobrenatural à natureza.

 

O globo terrestre.

 

Euler Sandeville Jr.

Pesquisar é indagar a existência.
φύσις κόσμος αίων κρόνος καιρός
este mundo está em guerra, embora muitos de nós desejem a paz

 

 

como citar:
SANDEVILLE JR., Euler. “Mundus Novus (C. 1055 a 1749)“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016-2018.

 

Como imagens nesta abertura desta seção, ofereço-lhes três cenas. São cenas de almoço muito sofisticadas, reproduzidas abaixo, onde a refeição é tanto ordem social quanto é inserida em uma ordem cósmica ou do destino humano.

Como você poderá verificar, esses almoços não são em nada comparáveis, nem na finalidade, enredo, técnica e suporte, contexto social. As datas de realização abrem e fecham o quatrocentos, o que obviamente não dá conta da complexidade das relações sociais e do imaginário dessa “Longa Idade Média” ou “Era Moderna”, mas é suficiente para ilustrar que ambas indicam temporalidades ampliadas para muito antes e depois da data estrita de sua criação.

A primeira, dos irmãos Limbourg (Herman, Paul, e Jean, todos falecidos com menos de 30 anos em 1416, juntamente com Jean de Berry) integra o extraordinário Les très riches heures du duc de Berry (literalmente, As muito ricas horas do Duque Jean de Berry). O Duque (1340-1416) era filho do rei João II e irmão de Carlos V da França, de Luis I de Nápoles (Duque de Anjou, 1339-1384) e de Filipe II (Duque de Borgonha, 1342-1404). Depois dos irmãos Limbourg trabalharam também no livro Jean Colombe (1430-1493) e possivelmente Barthélemy van Eyck (c. 1420-posterior a 1470).

 

Frères de Limbourg, Les très riches heures du duc de Berry, mês de janeiro, museu Condé, Chantilly, ms.65, f.1v, c. 1411-1416.
This is a faithful photographic reproduction of a two-dimensional, public domain work of art. The work of art itself is in the public domain for the following reason: This work is in the public domain in its country of origin and other countries and areas where the copyright term is the author’s life plus 100 years or less. Disponível em commons.wikimedia.org/wiki/File:Les_Tr%C3%A8s_Riches_Heures_du_duc_de_Berry_Janvier.jpg acesso em 14/03/2016.

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A AURORA NA NEBLINA: APRESENTAÇÃO

OS TEMPOS E OS MUNDOS: SOBRE A ANTIGUIDADE DOS MUNDOS

A LONGA ANTIGUIDADE DOS MUNDO I
A AURORA NA NEBLINA (os relatos das origens, até o neolítico)
Nossa Terra Incognita: amnésia e imaginação: hic sunt dracones [1]

Os vestígios no silêncio…

 

Euler Sandeville Jr.
Junho de 2017 (definição da seção março de 2016), reorganização setembro de 2018.

como citar:
SANDEVILLE JR., Euler. “A aurora na neblina: apresentação da seção“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016-2018.

 

Pesquisar é indagar a existência.
φύσις κόσμος αίων κρόνος καιρός
este mundo está em guerra, embora muitos de nós desejem a paz

 

 

“Um povo é como um homem. Quando desaparece, nada mais resta dele, se não tiver tomado o cuidado de deixar sua impressão nas pedras do caminho” (Élie Faure [2]).

 

Com a frase acima Élie Faure, em sua “A Arte Antiga” (1909) [2] , encerra o capítulo que trata da arte paleolítica e neolítica. Mas essa impressão deixada muita vezes é muda e silenciada hermeticamente no tempo, senão pelo ponto de onde a observamos hoje e a queremos ver como resposta para nossas suposições. Esta seção de “A Natureza e o Tempo (o Mundo)” trata desses tempos, dos quais restam apenas vestígios muito parciais e esparsos, que dão lugar a hipóteses muitas vezes mais imaginativas sobre esse passado distante do que de fato conclusões racionais. Hipóteses que, mais do que desvendar esses tempos, elucidam o modo como desejamos nos narrar e nos ver no mundo.

Seja bem vindo para adentrar a discussão sobre a longa antiguidade dos mundos. Continuar lendo

a estrutura do projeto

A NATUREZA E O TEMPO (O MUNDO): A ESTRUTURA DO PROJETO
docente responsável: Euler Sandeville Jr.
Pesquisar é indagar a existência.
φύσις κόσμος αίων κρόνος καιρός
este mundo está em guerra, embora muitos de nós desejem a paz

como citar:
SANDEVILLE JR., Euler. “A Natureza e o Tempo (o Mundo): a estrutura do projeto“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016.

I. A NATUREZA E O TEMPO (O MUNDO): POÉTICAS E REPRESENTAÇÕES
1. APRESENTAÇÃO, CONCEITOS E MÉTODOS
1. CONCEITUAÇÃO (apresenta a proposta do trabalho)

2. CRONOS: MUNDOS (Algumas questões de método)

3. GEO (As regiões do mundo, adotadas neste projeto)

2. SOBRE A ANTIGUIDADE DOS MUNDOS

1. A AURORA NA NEBLINA (os relatos das origens, até o neolítico)
Nossa Terra incógnita: amnésia e imaginação: hic sunt dracones

2. A LONGA ANTIGUIDADE DOS MUNDOS I (3500 a.C. 64 a.C.)
A natureza, o sagrado e o sobrenatural, o divino, as terras e os tempos.

3. A LONGA ANTIGUIDADE DOS MUNDOS II (63 a.C. a 1054 d.C.)
A natureza, o sagrado e o sobrenatural, o divino, as terras e os tempos.

4. MUNDUS NOVUS (cerca 1054 a 1750/1774)
A invenção da Europa, a nova Antiguidade. Do sobrenatural à natureza.

3. SOBRE A BREVIDADE DO PRESENTE

5. MUNDOS MODERNOS (c.1750 A 1945).

6. MUNDOS CONTEMPORÂNEOS (OU DEPOIS DO FIM DO MUNDO) (depois de 1945).
O mundo como matéria. about:config: hic sunt dracones.

4. NATUREZA E CULTURA NO BRASIL

5. TEMAS TRANSVERSAIS

6. PLANETÁRIO

 

II. AION

1. PERÍODOS E TEMPOS

1. A AURORA NA NEBLINA (os relatos das origens, até o neolítico)
Nossa Terra incógnita: amnésia e imaginação: hic sunt dracones

2. A LONGA ANTIGUIDADE DOS MUNDOS I (3500 a.C. 64 a.C.)
A natureza, o sagrado e o sobrenatural, o divino, as terras e os tempos.

[ 3500 a.C. a 1571 a.C. ]

[ 1570 a.C. a 1150 a.C. ]

[ 1550 a.C. a 0900 a.C. ]

[ 0900 a.C. a 0613 a.C. ]

[ 0612 a.C. a 0 539 a.C. ]

[0 538 a.C. a 0337 a.C. ]

[0 336 a.C. a 0064 a.C. ] Continuar lendo

a Terra é azul… que mundo é esse? parte 4: nossos novos ícones e nossa nova percepção do mundo

A TERRA AZUL [1] … QUE MUNDO É ESSE?
Parte 4. nossos novos ícones e nossa nova percepção do mundo
Euler Sandeville Jr.
versão inicial 2005/jan 2010/ 21/02/2016 a 05/03/2016. Última atualização: 05/03/2016

 


cite este artigo
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 4: nossos novos ícones e nossa nova percepção do mundo“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse-parte-4-nossos-novos-icones-e-nossa-nova-percepcao-do-mundo/ acesso em DIA/MÊS/ANO.


 

As ameaças da década de 1970, do sistema internacional bipolar, e no Brasil o terror da ditadura e a luta armada, cederam a novos ícones. Inicialmente, esses ícones foram-nos oferecidos como a destruição do muro de Berlim em 1989 e o “esfacelamento” da URSS em 1991. Entre 1989 e 1992 [19], esses fatos emblemáticos alardeavam um “mundo novo”, surgido sobre as ruínas da Guerra Fria. Não deu certo, esse novo mundo.

A União Soviética não existe mais, declarou em 1991 James Baker, secretário de Estado dos EUA. Também não havia mais o Muro de Berlim, de 155 km de extensão, 3,60 metros de altura, dimensões e formas de controle que hoje seriam discretas diante de câmeras, drones, mapeamento contínuo até de dados biomédicos, preferências decorativas de si (e o self), amizades etc. e localização/mobilidade dos cidadãos nas grandes cidades. O Muro nos chocava pela brutalidade, pelo terror emudecedor que se nos oferecia como uma forma de educador invisível. Começara com uma cerca armada em 1961, mesmo ano da tentativa norte-americana de invasão de Cuba, um dos ícones da Guerra Fria.

O mundo evidentemente mudara nas décadas entre 1980 e 1990, todos reconheciam, mas não encontravam prontamente as formas suficientes de um novo posicionamento. Logo, todos os discursos procurariam adaptar-se, reinterpretar e reinterpretar-se para reinserirem-se no que parecia uma nova ordem de coisas.

Estação Espacial MIR1, lançada em 1986, ano também da explosão do ônibus espacial Challenger. Na foto: “12 June 1998 Russia’s Mir space station is backdropped over the blue and white planet Earth in this medium range photograph recorded during the final fly-around of the members of the fleet of NASA’s shuttles. Seven crew members, including Andrew S.W. Thomas, were aboard the Space Shuttle Discovery when the photo was taken; and two of his former cosmonaut crewmates remained aboard Mir. Thomas ended up spending 141 days in space on this journey, including time aboard Space Shuttles Endeavour and Discovery, which transported him to and from Mir. Fonte spaceflight.nasa.gov/gallery/images/shuttle/sts-91/hires/91727051.jpg e (spaceflight.nasa.gov/gallery/images/shuttle/sts-91/html/91727051.html) Original image: NASA/Crew of STS-91 This image or video was catalogued by one of the centers of the United States National Aeronautics and Space Administration (NASA) under Photo ID: STS091-727-051. This tag does not indicate the copyright status of the attached work. ”
Disponível em spaceflight.nasa.gov/gallery/images/shuttle/sts-91/hires/91727051.jpg acesso em 27/02/2016.

“1984, Micrografia eletrônica de varredura de VIH-1, em cor verde, saindo de um linfócito cultivado. Microfotografía con MEB de VIH-1 en liberación (en verde) en un cultivo de linfocitos. Esta imagen ha sido coloreada para resaltar las características importantes; para la imagen original en blanco y negro véase PHIL 1197. Las múltiples protuberancias redondeadas sobre la superficie celular representa los sitios de ensamblado y gemación de viriones. Photo Credit: C. Goldsmith Content Providers: CDC/ C. Goldsmith, P. Feorino, E. L. Palmer, W. R. McManus – This media comes from the Centers for Disease Control and Prevention’s Public Health Image Library (PHIL), with identification number #10000. Note: Not all PHIL images are public domain; be sure to check copyright status and credit authors and content providers.” Disponível em pt.wikipedia.org/wiki/V%C3%ADrus_da_imunodefici%C3%AAncia_humana#/media/File:HIV-budding-Color.jpg Acesso em 27/02/2016.

Em brasustribunaldosbichos.blogspot.com.br/2012/07/pais-inicia-producao-de-animais.html acesso em 27/02/2016, post de 2012, ficamos sabendo que os primeiros animais transgênicos foram camundongos produzidos em 1981:
“Desde então, o genoma do camundongo já foi completamente sequenciado e praticamente todos os seus genes – 95% dos quais são iguais aos do homem – já foram modificados de uma forma ou de outra (…) Só o Laboratório Jackson, um dos maiores fornecedores de camundongos transgênicos do mundo, nos EUA, tem um catálogo com mais de 6 mil variedades e vendeu, só no ano passado, mais de 3 milhões de animais para pesquisadores de 56 países”. No Brasil o primeiro foi produzido em 2000, na USP. O Laboratório de Modificação do Genoma (LMG), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, em Campinas (“Se um cientista precisa de um animal transgênico, ele faz a encomenda, fornece as especificações, o LMG produz o animal e manda para ele. Tal qual um escritório de engenharia executa um projeto para um arquiteto”), já produziu cerca de 50 linhagens de camundongos transgênicos, utilizando nove genes diferentes: “Outras 15 linhagens foram importadas do Laboratório Jackson, por US$ 6,5 mil (cerca de US$ 230 por animal). O Estado presenciou a chegada das últimas quatro, no início do mês: oito camundongos em uma caixa de plástico com comida e água em forma de gel. São animais com um grau a mais de complexidade transgênica. Eles têm uma enzima no organismo que funciona como um interruptor molecular, que permite aos cientistas ligar ou desligar as modificações genéticas onde e quando desejarem.”.
Na imagem acima, um uso menos cinetífico. “GloFish”, variedade do peixe Danio rerio geneticamente modificada com adição de um gene do cnidário Aequorea victoria. No sítio da empresa lemos: “GloFish® fluorescent fish are born brilliant! They are not injected or dyed. They inherit their harmless, lifelong color from their parents, and require the same care as any other community fish. GloFish are great for any home, office, or classroom and perfect for hobbyists and beginners alike. GloFish are available in six striking colors: Red, Blue, Green, Purple, Orange, Pink.” Source glofish.com/images/glofish_005.jpg The copyright holder of this file allows anyone to use it for any purpose, provided that the copyright holder is properly attributed. Redistribution, derivative work, commercial use, and all other use is permitted.
Disponível em commons.wikimedia.org/wiki/File:GloFish.jpg acesso em 27/02/2016.

No cotidiano a nossa percepção do mundo também era imensamente impactada. Em 1995 o acesso à World Wide Web (“criada” em 1991) foi possibilitado a partir do estabelecimento dos provedores. Os telefones celulares, introduzidos em 1990 no Brasil, quando havia 667 linhas, chegam a 1.416.500 linhas em 1995. Coisa ainda irrelevante, se considerarmos o boom de aparelhos a partir de 1999 (15.032.698 linhas), atingindo no início de 2004 mais de 47 milhões de linhas e logo depois a cifra impensável (e irreal) de quase “um celular para cada brasileiro” (175,6 milhões de celulares em janeiro de 2010 segundo a Anatel).

Todas essas transformações acima indicadas, e outras igualmente relevantes, quase já não nos permitem lembrar – tão absorvidos e conectados que estamos -, do mundo no qual, até há pouco, muitos de nós viveram. O modo de viver muda, não são apenas hábitos e novos artefatos. São profundas mudanças comportamentais nas expectativas, anseios e medos, nas possibilidades e valores de satisfação, e o que não se percebe tão facilmente, na ética e na própria natureza. Trata-se de um novo mundo, por vezes intratável.

Havia uma outra face, subjacente à euforia anunciada com a queda da Cortina e do Muro, que se mostraria logo no início da primeira década do século 21. Não mais entre bancas de jornais e revistas que coloriam o imaginário dos anos 1960 na canção de Caetano Veloso (Alegria Alegria, de 1967, apresentada no Festival da Record desse ano), mas em um mundo conectado 24 horas por dia. Quem não abre o programa de imeil (e-mail) ao chegar em casa? Aliás, informação já antiquada, os e-mails e redes sociais vibram aos nossos passos, enquanto conversamos, nas reuniões, ao redor da noite. Esta outra face da nossa alardeada “Nova Era” é ainda violenta, mas vem carregada de ambiguidade, emergência, indiferença, como observei em um texto de 2002:

O signo de esperança e liberdade da queda do muro de Berlim em 1989 revela sua face crua, dura, abominável, na ‘primeira guerra do século’, como está sendo chamada. Mudaram-se os jogos e condições, o modo de fazer guerra? Não interessa, aos ataques seguem-se orações, doação de comida e mortes. A polarização Nova Iorque – Cabul põe a descoberto os valores a partir dos quais estamos construindo o planeta para nossos filhos!

A mesma tecnologia que nos permite colocar, neste momento, este trabalho on line disponível ao mundo todo, ou transmitir em “tempo real” uma reunião a qualquer parte do planeta, ou realizá-la em rede entre vários países em “tempo real”, é extensão cotidiana de novas formas de controle, circulação de informação… e morte. A vida, tornada por todos os meios questão de mercado, por isso também de estratégia, é disputada palmo a palmo nos fóruns entre as nações, como nas esquinas das cidades, nos pregões, gabinetes públicos, sindicatos e escritórios.

Essa face sombria da “Nova Era” anunciada – não tão nova como logo se viu, evidenciou-se com o atentado às “torres gêmeas” de Nova Iorque (em 2001), com as subsequentes novas formas de ações estadunidenses no Oriente Médio, e hoje com atentados, refugiados e crimes transmitidos ao vivo on line. [20]

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notas
1 Atualização parcial do texto base do memorial apresentado na Livre Docência em 2010, elaborado a partir de reelaboração crítica de texto de 2005.

19 Em âmbito nacional, o ano de 1984 foi um marco quando a praça passou a ser novamente pública em toda sua extensão, e os estudantes correndo da polícia e se reagrupando aqui e ali da década anterior foram substituídos nas áreas centrais urbanas pelo comício-show-cívico e pela eleição livre para presidente (este, triste memória) em 1989.

20 SANDEVILLE JR., Euler. Memorial para um, ano novo e para um novo milênio. São Paulo: Revista Brasil, 2002b.

 


como citar material desta página:
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 4: nossos novos ícones e nossa nova percepção do mundo“.A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse-parte-4-nossos-novos-icones-e-nossa-nova-percepcao-do-mundo/ acesso em DIA/MÊS/ANO.

[para citar este artigo conforme normas acadêmicas, copie e cole a referência acima (atualize dia, mês, ano da visita ao sítio)]


núcleo de estudos da paisagem
a natureza e o tempo (o mundo)
uma proposta de euler sandeville

 

 

 

 

 

 

a Terra é azul… que mundo é esse? parte 8. para onde nossas decisões nos conduzem (conclusão)

A TERRA AZUL [1] … QUE MUNDO É ESSE?
Parte 8
. para onde nossas decisões nos conduzem (conclusão)?
Euler Sandeville Jr.
versão inicial 2005/jan 2010/ 21/02/2016 a 05/03/2016. Última atualização: 05/03/2016

 


cite este artigo
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 8. para onde nossas decisões nos conduzem (conclusão)?“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse-parte-8-para-onde-nossas-decisoes-nos-conduzem-conclusao/ acesso em DIA/MÊS/ANO.


 

O período aqui referido, desde o final trágico da Segunda Guerra, ultrapassa por pouco 70 anos, quando escrevo este ensaio. Um tempo inferior à duração esperada da vida humana, em uma condição sob muitos aspectos sem precedentes. Da sociedade de consumo e da contracultura à globalização, percebo que mitos como esses não dão conta dos fatos a que se referem.

Quais valores são transformados e transformadores? Quais realidades, hoje, são as que já estão presentes, mas não vemos? Quais são os muros que hoje nos são dados a construir, ainda que discordando?

Lembrar, nesse sentido e em tal contexto, é mais do que nostalgia ou rememorar, é a possibilidade de estar presente em um hoje alongado, de compreender, de atuar em um tempo mais amplo do que aquele oferecido pela técnica e pelo negócio. E cada vez mais também pelo ensino.

Por vezes, tenho a impressão de estar havendo um contínuo lasseamento dos ideais coletivos a par de uma introjeção e institucionalização (normalização?) crescente de formas de controle do comportamento. Mas vejo que não se trata só disso. Mais importante, é o que significa perceber que, também pode ser verdade, os ideais estão tão vivos hoje, quanto sempre estiveram lasseados. Esta última ideia não nos furta a necessidade, sempre posta aos homens, de terem de, cada um à sua época, posicionarem-se perante os valores e práticas. Mas representa a obrigação de percebermos qual a responsabilidade e oportunidade com que nos defrontamos hoje. Em um hoje ampliado, histórico e existencial.

Compreender-me (compreendermo-nos) em mudança propõe-me o problema do que deve permanecer, para que a institucionalização a que somos cobrados seguidamente não se torne conformação, esvaziamento, traição de si mesmo por si mesmo. Como minhas mudanças se inserem nas mudanças em curso? O amadurecimento – sempre associado a compromisso e progresso – é uma forma elaborada de traição do que se foi? Ou o compromisso ainda pode ser uma forma criativa? Amadurecer é conformar-se a esse estado de coisas ou é, justamente, entendendo na medida do possível, preservar valores fundamentais diante de um caudal que se oferece como inexorável?

As questões, como se vê, não são meramente pessoais. Há uma possibilidade de ampliação na distribuição de recursos sociais e um direcionamento que redunda em suas ausências. Há uma padronização dos procedimentos, oportunidades, linguagens, e da sedução do pensamento pela promessa de sua expressão multifacetada em nichos pulverizados, ao enxertar-se no sistema produtivo de bens ditos imateriais, que trariam ganhos materiais e simbólicos a seus operadores, que subordinam-se assim a essa lógica como se fossem peças criativas ocupadas consigo mesmas.

Mas há um engano, o que tratamos aqui não são fenômenos imateriais, de uma causa e origem desconhecida. Estamos imersos neles. São concretos, e portanto, consequentes. Há ainda outro engano, a matéria não esgota-se em si, como a técnica e o negócio parecem querer, nem o imaterial no plano dos pensamentos e desejos como a (inter)subjetividade do self parece propor. Estamos caminhando com muita pressa, como se soubéssemos aonde vamos, e sequer sabemos as consequências desses atos ampliados na multidão.

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notas
1 Atualização parcial do texto base do memorial apresentado na Livre Docência em 2010, elaborado a partir de reelaboração crítica de texto de 2005.

 


como citar material desta página:
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 8. para onde nossas decisões nos conduzem (conclusão)“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse-parte-8-para-onde-nossas-decisoes-nos-conduzem-conclusao/ acesso em DIA/MÊS/ANO.

[para citar este artigo conforme normas acadêmicas, copie e cole a referência acima (atualize dia, mês, ano da visita ao sítio)]


núcleo de estudos da paisagem
a natureza e o tempo (o mundo)
uma proposta de euler sandeville

 

 

 

 

 

 

a Terra é azul… que mundo é esse? parte 7. em tempo real

A TERRA AZUL [1] … QUE MUNDO É ESSE?
Parte 7. em tempo real
Euler Sandeville Jr.
versão inicial 2005/jan 2010/ 21/02/2016 a 05/03/2016. Última atualização: 05/03/2016

 


cite este artigo
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 7. em tempo real“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse-parte-7-em-tempo-real/ acesso em DIA/MÊS/ANO.


 

Todas as novidades desse Admirável Mundo de consumo são transmitidas em tempo real pela televisão, pela internet e pela telefonia celular. Ver o homem pousando na Lua ou assistir na TV a copa do mundo de 1970, façanhas notáveis, havia tornado difícil imaginar o evento grandioso que deve ter sido a primeira transmissão de copa do mundo por rádio em 1938! Tão pouco tempo (apenas 32 anos) separa os dois acontecimentos! A partir da década de 1990 uma infinidade de aparatos técnicos invadiu e transformou radicalmente o cotidiano nas capitais brasileiras, e até mesmo a forma de relacionamento pessoal, profissional, produtivo, comercial, afetivo.

Diversos indicadores de consumo e acesso a bens podem ser usados, considerando sua distribuição regional por domicílios, como presença de aparelhos de rádio, televisão, computadores, internet, e outros indicadores. Essa cartografia, com dados obtidos nas pesquisas do IBGE e outros institutos, evidenciam tanto os aspectos de concentração, como os de irradiação que esses bens promovem, já que disseminam padrões de comportamento, sociabilidade e desejos, formam padrões de consumo, consensos, nichos identitários, padrões de linguagem e representação social, valores, com imenso poder de introjeção.

Esther Hamburger [24], 1998, apresenta três mapas com uma evolução dos domicílios com televisão nos anos de 1970 (concentrados sobretudo no Sudeste e com grande densidade no Sul), 1980 (onde se densifica ainda mais no sudeste e no sul, mas com dispersão significativa pelo sul de Minas e Goias e um eixo de expansão noroeste por Mato Grosso do Sul e Rondônia, mas já com ampla dispersão pelo território nacional) e 1990, com uma dispersão por todo o território nacional. Mostram também a disseminação de hábitos de consumo, que vão se tornando corriqueiros na vida cotidiana, cujos fluxos simbólicos e de objetos é complexo no espaço. A Figura 19 ilustra distribuição de televisores por domicílios, baseado em dados do IBGE para 2001. A tabela 1, obtida na mesma fonte, indica a porcentagem de domicílios com telefone, televisão, microcomputador e acesso a internet a partir de 2001.

Porcentagem de televisores por domicílios, baseado em dados do IBGE para 2001.
“É importante observar que a proporção da cobertura da televisão é superior à relativa a geladeiras. Em 2001, a quantidade de domicílios com televisão era de 89,0%, enquanto que a de domicílios com geladeiras era de 85,1%. Já em 2011, estes números alcançaram 97,2% e 95,8%, respectivamente”.
Fonte: O crescimento Socioeconômico do Brasil e a Radiodifusão. ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão). O sítio não apresenta restrição de direitos sobre uso da imagem. Disponível em abert.org.br/web/index.php/dados-do-setor/estatisticas/radiodifusao-socioeconomico acesso em 04/03/2016

Porcentagem de domicílios com rádio, televisão, microcomputador e acesso a internet entre 2001 e 2011, com dados do IBGE.
“Em 2011 (veja o quadro 3.5), existiam mais domicílios com TV (97,20%) do que com rádio (83,80%). Entretanto, na área rural, o rádio se assemelha muito com a televisão em termos de penetração, na proporção de 84,2% para TV e de 82,3% para rádio, isso de acordo com o site especializado Teleco. A grande maioria dos domicílios possui TV a cores (95,3%). Apenas 0,4% dos domicílios possuem TV em preto e branco (2009).”
Fonte: O crescimento Socioeconômico do Brasil e a Radiodifusão. ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão). Disponível em abert.org.br/web/index.php/dados-do-setor/estatisticas/radiodifusao-socioeconomico↑ acesso em 04/03/2016

A exclusão, gradualmente, evidencia-se como é (mais difícil de ser percebida), não se trata de objetos, mas de localizações em sentido amplo, no espaço, no social, nas possibilidades de inserção e fruição. Essa subordinação (ou diálogo em alguns casos) das esferas da sociabilidade à economia, à tecnologia e ao consumo, atinge os hábitos e o corpo. Mais do que isso, não só atinge a natureza imensamente incorporada como símbolo ou recurso a uma lógica institucional e de mercado, como se poderia dizer que a natureza, tal como ainda a conhecemos e entendemos, de certo modo já não existe mais.

A partir de 1996, com a clonagem de Dolly, o imaginário da ficção científica aproxima-se do cotidiano. O avanço dos transgênicos, da clonagem, do comércio de órgãos, o turismo ecológico [25] e agora o orbital, mostram um novo domínio do mercado sobre as esferas da vida e da natureza. Esses avanços tecnológicos recolocam a questão ambiental em um novo paradigma, colhendo plenamente os frutos de sua institucionalização (SANDEVILLE JR. 1999a). Ampliam-se as implicações éticas da nova tecnologia.

A ECO 92, com seu glamour na contradição, foi um desses (entre outros) modos de colocar escancarado diante dos olhos que não veem a natureza desse paradigma, ao fazê-lo a partir de uma necessidade razoável e de uma construção de consenso que se sobrepõe pelo discursivo, tão normativo quanto genérico, quase uma plataforma que agasalha nichos de negócios. Sua construção ideológica na forma atual nem sempre é devidamente avaliada, gerando um consenso curioso em uma época de dissenso consentido. Estende-se por todo o mundo, ou todos os lugares, prevalecendo diferenças importantes em qualquer escala que observarmos.

Enquanto nos divertimos ou trabalhamos, é necessário perguntar e perscrutar: que mundo já está presente e não nos permitimos dar conta?

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notas
1 Atualização parcial do texto base do memorial apresentado na Livre Docência em 2010, elaborado a partir de reelaboração crítica de texto de 2005.

24 HAMBURGER, Esther. Diluindo fronteiras: a televisão e as novelas no cotidiano. In NOVAES, Fernando (org). História da vida privada no Brasil, vol. 4. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

25 Sobre Turismo denominado ecológico: SANDEVILLE JR., Euler, SUGUIMOTO, Flávia Tiemi. Ecoturismo e (Des) Educação Ambiental. Revista Brasileira de Ecoturismo, v.3, p.1, 2010.

 


como citar material desta página:
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 7. em tempo real“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse-parte-7-em-tempo-real/ acesso em DIA/MÊS/ANO.

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