A reta e a curva, a estética da paisagem

A RETA E A CURVA: A ESTÉTICA DA PAISAGEM?
Euler Sandeville Jr. (1996)
[notas no fim da página, referência para citação no fim da página]

artigo original (o link abaixo abre em outra janela, mesmo que prefira ler aqui, não deixe de visitar o artigo publicado):

SANDEVILLE JUNIOR, Euler. A reta e a curva, a estética da paisagem? Paisagem e Ambiente, São Paulo, v. 8, p. 147-173, 1996.  Núcleo de Estudos da Paisagem, on line, São Paulo, 1996. Disponível em http://www.revistas.usp.br/paam/article/view/133829/129696↑ acesso em 18 de fevereiro de 2018

 


RESUMO

Há uma ideia comum de que o “paisagismo formal” seja uma expressão autoritária do domínio humano sobre a natureza e de que o “paisagismo informal” expresse identificação com a natureza. Este texto procura evidenciar o campo simbólico por trás desses estereótipos recorrentes na história e teoria do projeto paisagístico. Polarizações semelhantes também ocorrem no campo da edificação e do urbanismo, mostrando que a tensão entre o formal e o informal, ou o racional e o orgânico, ou a reta e a curva como a designamos aqui, se torna veículo de conteúdos que transcendem em muito o campo estrito do desenho. A compreensão desse campo simbólico é necessária para uma justa apreciação das obras-primas do passado e para a investigação da relação histórica entre projeto, natureza e cultura, tema tão pertinente ao paisagismo.

ABSTRACT

There here are a common compreension in landscape architecture that formal design is like a hard human dominance over nature and the organic or informal landscape means total identification with nature. Then I think that the understanding of the simbolism in landscape architecture is basic to our compreension of the past masterpiece and to the compreension of the historic relationship between nature, culture and design that is the base to studies about landscape architecture. The kind of contrasts like straight line against curve lines, the rational aganist the organic, are also very common in architecture and urban design and my intention in this paper is to introduce my thinking about these.

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o bisão na caverna (artefatos e artifícios)

O BISÃO NA CAVERNA (A AURORA NA NEBLINA – ARTEFATOS E ARTIFÍCIOS)
Euler Sandeville Jr.
nova versão 16/06/20171

 

Bison antiquus, espécie da América do Norte. “Durante a época posterior Pleistoceno, entre 240 mil e 220 ​​mil anos atrás, Bisonte-da-estepe, migraram da Sibéria para o Alasca. Esta espécie habitou partes do norte da América do Norte durante todo o restante do Pleistoceno. No entanto, Bison priscus foi substituído pelo Bisão-de-cornos-longos, Bison latifrons, e um pouco mais tarde por Bison antiquus. Os maiores B. latifrons parece ter morrido por cerca de 20.000 anos atrás. Em contraste, B. antiquus tornou-se cada vez mais abundante em partes da América do Norte a partir de 18.000 até cerca de 10.000 anos,[2] after which the species appears to have given rise to the living species, Bison bison, após o qual a espécie parece ter dado origem às espécies vivas, Bison bison” (disponível em pt.wikipedia.org/wiki/Bis%C3%A3o-antigo acesso em 07/05/2016). Por David Monniaux – self photo, CC BY-SA 3.0, commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2939310 acesso em 07/03/2016.

Nesta seção entramos, pela imaginação estimulada por uma informação arduamente construída, na aurora nebulosa dos tempos. É um “lugar” sem respostas finais. A neblina através da qual procuramos entrever esse passado, imenso e longínquo, permanece obscurecendo nossos conhecimentos e certezas. Daí o título desta primeira seção, “A Aurora na Neblina”. É, como parece ser, poético.

Toda discussão sobre as origens tem em seu fundo o questionamento de como viemos a existir, e de como chegamos a ser como somos; no limite, coloca-se qual o sentido – ou ausência de sentido -, de nossa existência. Mas, aqui, reconhecendo essa dimensão das narrativas sobre a(s) origem(ns), o que se busca não é uma indagação ontológica ou existencial da nossa origem. Essa indagação deve ser construída a cada momento, não em um passado que se perdeu da memória senão em fragmentos tênues que nos chegam.

Portais da consciência. Criação de Euler Sandeville, 2011, montagem de fotos do autor . Gruta do Janelão: Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, Januária, Itacarambi e São João das Missões, todas na região norte de Minas Gerais, 2000. Hospital Psiquiátrico do Juqueri, antigo alojamento da Colônia de Alienados, área de labor-terapia, Franco da Rocha, SP. Foto Euler Sandeville, 2004.

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a longa antiguidade dos mundos (3500 a.C. a 64 a.C.)

OS TEMPOS E OS MUNDOS: SOBRE A ANTIGUIDADE DOS MUNDOS
Euler Sandeville Jr.

 

II. A LONGA ANTIGUIDADE DOS MUNDOS I (3500 a.C. a 64 a.C.)
A natureza, o sagrado e o sobrenatural, o divino, as terras e os tempos.

 

Estela de Narâm-Sîn, rei de Akkad (reinado de 2190 – 2154 aC.), celebrando sua vitória contra os Lullubi de Zagros. Calcário, c. 2250 aC Trazido de Sippar para Susa entre outros despojos de guerra no século XII aC. H. 2 m x W. 1,5 m. Escavado por Jacques de Morgan, 1898. Departamento de Antiguidades Orientais, Richelieu, térreo, sala 2. Disponível em pt.wikipedia.org/wiki/Sarg%C3%A3o_da_Ac%C3%A1dia#/media/File:Stele_Naram_Sim_Louvre_Sb4.jpg

 

O mundo e as Escrituras Judaicas

MÓDULO I

Transcrições e traduções de documentos:

[ -3500 a.C. a 1571 a.C. ]       [ -1570 a.C. a 1150 a.C. ]

MÓDULO II

Transcrições e traduções de documentos:

[ -1150 a.C. a 900 a.C. ]       [   -900 a.C. a 613 a.C. ]

MÓDULO III

Transcrições e traduções de documentos:

[ -612 a.C.a 539 a.C. ]       [  -538 a.C.a 337 a.C. ]

[ -336 a.C. a 64 a.C. ]

 

 

Foto Euler Sandeville, Folha, detalhe, 2009.

Folha, detalhe. Foto de Euler Sandeville, 2009.

 

 

 


 

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núcleo de estudos da paisagem
a natureza e o tempo (o mundo)
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a longa antiguidade dos mundos (63 a.C. a 1054 d.C.)

OS TEMPOS E OS MUNDOS: SOBRE A ANTIGUIDADE DOS MUNDOS
Euler Sandeville Jr.

 

II. A LONGA ANTIGUIDADE DOS MUNDOS II (64 a.C. a 1054 d.C.)
A natureza, o sagrado e o sobrenatural, o divino, as terras e os tempos.

 

As Escrituras cristãs

MÓDULO IV

Transcrições e traduções de documentos:

[ -63 a.C. a 14 d.C. ]       [  14 d.C. a 98 d.C. ]

 

Ocidente e Oriente

MÓDULO V 98 d.C. a 324/380-477 d.C.

Transcrições e traduções de documentos:

[ 98 a 159 d.C. ]       [ 160 a 284/313 d.C. ]

[ 313/324 a 380 d.C. ]       [ 380 a 476 d.C. ]

MÓDULO VI

Transcrições e traduções de documentos:

[ 477 d.C. a 629 d.C. ]       [   630 d.C.a 799 d.C. ]

MÓDULO VII

Transcrições e traduções de documentos:

[ 800 d.C.a 961 d.C. ]       [   962 d.C. a 1054 c. 1072 d.C. ]

 

 

Foto Euler Sandeville, Folha, detalhe, 2009.

Folha, detalhe. Foto de Euler Sandeville, 2009.

 

 

 


 

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mundus novus (cerca 1054 a 1750/1774)

OS TEMPOS E OS MUNDOS: SOBRE A ANTIGUIDADE DOS MUNDOS
Euler Sandeville Jr.

 

III. MUNDUS NOVUS (cerca 1054 a 1750/1774)
A Longa Idade Média e a nova antiguidade
A invenção da Europa. Do sobrenatural à natureza.

O título da seção é inspirado na carta de Américo Vespúcio, Mundus Novus. Carta a Lorenzo di Piefrancesco dei Medici. [1]

1260. Raiz Jesse com Maria e Criança; Miniatura do Scherenberg Psalter, manuscrito em pergaminho, 158 folhas, 18,5 x 13 cm; Estrasburgo, c. 1260. Badische Landesbibliothek, Cod. St. Peter perg. 139, folha 7v. Disponível em pt.wikipedia.org/wiki/Árvore_de_Jessé

Transcrições e traduções de documentos:

[ 1054/1073 a 1257 ]       [ 1258 a 1414 ]

[ 1415 a 1491 ]       [ 1492/1497 a 1542 ]

1543/1563 a 1648 ]       [ 1648 a 1750/1774 ]

ARTIGOS

MUNDUS NOVUS. Euler Sandeville Jr. Página de abertura da seção.

SANDEVILLE JR., Euler; DERNTL, Maria Fernanda. Imagens de uma capital: Paris nas perspectivas vôo-de-pássaro entre os séculos XVI e XVIII. Risco: Revista de Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo (Online), São Carlos, n. 5, p. 53-62, jan. 2007. ISSN 1984-4506. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/risco/article/view/44689↑>. Acesso em: 26 feb. 2018. doi:http://dx.doi.org/10.11606/issn.1984-4506.v0i5p53-62↑.

ARTIGOS: TEMAS TRANSVERSAIS

SANDEVILLE JR., Euler. “Visões artísticas da cidade e a gênese da paisagem contemporânea. (2011). Anais do Encontro Nacional de Antropologia e Performance. São Paulo: Napedra/FFLCH/USP, 2012. [Tema transversal].

SANDEVILLE JR., Euler. A reta e a curva, a estética da paisagem? Paisagem e Ambiente, São Paulo, v. 8, p. 147-173, 1996. Núcleo de Estudos da Paisagem, on line, São Paulo, 1996. Artigo como foi publicado disponível em http://www.revistas.usp.br/paam/article/view/133829/129696↑ acesso em 18 de fevereiro de 2018. [Tema transversal].

Como imagens nesta abertura desta seção, ofereço-lhes mais três cenas. São cenas  de almoço muito sofisticadas,reproduzidas abaixo, onde a refeição é tanto ordem social quanto é inserida em uma ordem cósmica ou do destino humano.

Como você poderá verificar, esses almoços não são em nada comparáveis, nem na finalidade, enredo, técnica e suporte, contexto social. As datas de realização abrem e fecham o quatrocentos, o que obviamente não dá conta da complexidade das relações sociais e do imaginário dessa “Longa Idade Média” ou “Era Moderna”, mas é suficiente para ilustrar que ambas indicam temporalidades ampliadas para muito antes e depois da data estrita de sua criação.

A primeira, dos irmãos Limbourg (Herman, Paul, e Jean, todos falecidos com menos de 30 anos em 1416, juntamente com Jean de Berry) integra o extraordinário Les très riches heures du duc de Berry (literalmente, As muito ricas horas do Duque Jean de Berry). O Duque (1340-1416) era filho do rei João II e irmão de Carlos V da França, de Luis I de Nápoles (Duque de Anjou, 1339-1384) e de Filipe II (Duque de Borgonha, 1342-1404). Depois dos irmãos Limbourg trabalharam também no livro Jean Colombe (1430-1493) e possivelmente Barthélemy van Eyck (c. 1420-posterior a 1470).

Frères de Limbourg, Les très riches heures du duc de Berry, mês de janeiro, museu Condé, Chantilly, ms.65, f.1v, c. 1411-1416.
This is a faithful photographic reproduction of a two-dimensional, public domain work of art. The work of art itself is in the public domain for the following reason: This work is in the public domain in its country of origin and other countries and areas where the copyright term is the author’s life plus 100 years or less. Disponível em commons.wikimedia.org/wiki/File:Les_Tr%C3%A8s_Riches_Heures_du_duc_de_Berry_Janvier.jpg acesso em 14/03/2016.

Esses Livros de Horas eram devocionais, com o calendário eclesiástico e orações nas horas canônicas do dia. Nesse livro específico, destacam-se os castelos, paisagens e cenas laicas de divertimentos, inseridas em um campo zodiacal, indicando o movimento dos astros na passagem do ano. O mês de janeiro, reproduzido abaixo, retrata um banquete de ano novo, com o Duque à direita. Repare-se sua posição solene, em perfil, com o manto azul estampado estendendo-se sob a mesa, equilibrando-se com o personagem e com o azul do zodíaco acima, pontuando-se por toda a magnífica ilustração os azuis, vermelhos, dourados e branco.

“São duzentos e seis fólios, dos quais mais da metade são ilustrações de página inteira em um formato de 21 centímetros de largura por 29 centímetros de altura. Os pigmentos eram obtidos de matéria mineral ou por processos químicos, usando a goma-arábica como cola. Por exemplo, o verde era obtido a partir de malaquita e o azul de lápis-lazúli. Produtos obtidos a um preço considerável no Médio Oriente.” (Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Les_tr%C3%A8s_riches_heures_du_duc_de_Berry).

As ilustrações seguintes reproduzem O Banquete de Casamento (Nastagio Degli Onesti, de 1483), do pintor florentino Sandro Botticelli (1445-1510). São quatro pinturas realizadas em torno de 1483, dando visualidade a uma das novelas do Decameron (1348-1353) de Giovanni Boccaccio (1313-1375). A obra foi encomendada por Lorenzo il Magnifico de’ Medici (1449-1492) para o casamento de seu sobrinho, Gianozzo Pucci, com Lucrecia Bini, em 1483.

Nos dois primeiros quadros o jovem Nastagio, rejeitado pela amada Paola Traversari (como convinha ao amor cortês de Petrarca e Dante, mas dele escapando por um artifício que leva ao enlace matrimonial), contempla cena brutal, retratando a loucura do amor paixão e sua condenação ao fim trágico. Como a cena se repetia infinitamente, Nastagio organiza um banquete, no qual sua amada, ardilosamente é impactada pelo trágico fim do amor e do ciúme, e cede ao casamento com o jovem, dando lugar então ao banquete de casamento. Estes dois quadros, ambos almoços ao ar livre, também estão reproduzidos abaixo.

Devoção, paixão, matrimônio, convívio social e enquadramento em uma paisagem que é cósmica e civilizatória, expondo o destino e o artifício humanos, bem como sua submissão a uma ordem social que deve prevalecer. Bom almoço aos convidados.

O Banquete na Floresta (Nastagio Degli Onesti), de 1483, têmpera sobre tela, 0,83 m x 1,42 m, de Sandro Botticelli (Alessandro di Mariano di Vanni Filipepi, 1445-1510).
Disponível em pt.wikipedia.org/wiki/Nastagio_Degli_Onesti#/media/File:Sandro_Botticelli_075.jpg e pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Botticelli,_nastagio4.jpg acesso em 26/03/2017. Este material é de domínio público nos países onde os direitos autorais se estendem por 100 anos (ou menos) após a morte de seu autor. A posição oficial da Wikimedia Foundation é que «reproduções fiéis de obras de arte bidimensionais que estejam do domínio público estão também no domínio público e que reivindicações em contrário constituem um ataque ao próprio conceito de um domínio público». Para mais detalhes, consulte Commons: Quando usar a marcação PD-Art. Portanto, é considerado que esta reprodução fotográfica está também no domínio público.

O primeiro banquete se dá às portas da floresta em que se desenrola a trágica cena, que invade e desorganiza o encontro. O segundo almoço já é o do casamento, se dá em um contexto que tem uma cidade no horizonte, enquadrado em um cenário solene de uma galeria clássica com um arco do triunfo ao fundo. No capitel à frente se vêm os brasões das famílias Pucci, Medici e Bini.

O Banquete de Casamento (Nastagio Degli Onesti), de 1483, têmpera sobre tela, 0,83 mx 1,42m, de Sandro Botticelli (Alessandro di Mariano di Vanni Filipepi, 1445-1510).
Disponível em pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Botticelli,_nastagio4.jpg acesso em 26/03/2017. Este material é de domínio público nos países onde os direitos autorais se estendem por 100 anos (ou menos) após a morte de seu autor. A posição oficial da Wikimedia Foundation é que «reproduções fiéis de obras de arte bidimensionais que estejam do domínio público estão também no domínio público e que reivindicações em contrário constituem um ataque ao próprio conceito de um domínio público». Para mais detalhes, consulte Commons: Quando usar a marcação PD-Art. Portanto, é considerado que esta reprodução fotográfica está também no domínio público.

 

 

 

 

Foto Euler Sandeville, Folha, detalhe, 2009.

Folha, detalhe. Foto de Euler Sandeville, 2009.

 

NOTAS

[1] VESPÚCIO, Américo. Mundus Novus. Carta a Lorenzo di Piefrancesco dei Medici. In BUENO, Eduardo (org.). Novo Mundo. As cartas que batizaram a América. Introdução e notas Eduardo Bueno. Tradução das cartas João Angelo Oliva, Janaina Amado Figueiredo e Luís Carlos Figueiredo. São Paulo, Editora Planeta do Brasil, 2003, pg 33 a 61.

 


 

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enxergar o fundo do lago para ver durante a tempestade… (sobre criacionismo e evolucionismo, disputas sobre as origens e o presente)

ENXERGAR O FUNDO DO LAGO PARA VER DURANTE A TEMPESTADE…
(sobre criacionismo e evolucionismo, disputas sobre as origens e o presente)
Euler Sandeville Jr.
Junho de 2017 [1 *notas no fim da página]

Lago no Caraça, MG, foto Euler Sandeville Jr. ago, 2010.

Qual é a origem de nosso mundo e como é a origem dos homens nesse mundo? Continuar lendo

a aurora na neblina

OS TEMPOS E OS MUNDOS: SOBRE A ANTIGUIDADE DOS MUNDOS
Euler Sandeville Jr.
Junho de 2017 (definição da seção março de 2016), reorganização setembro de 2018.

 

I. A AURORA NA NEBLINA (os relatos das origens, até o neolítico)
Nossa Terra incognita: amnésia e imaginação: hic sunt dracones [1]

“Um povo é como um homem. Quando desaparece, nada mais resta dele, se não tiver tomado o cuidado de deixar sua impressão nas pedras do caminho” (Élie Faure [2]).

Com a frase acima Élie Faure, em sua “A Arte Antiga” (1909) [2] , encerra o capítulo que trata da arte paleolítica e neolítica. Esta seção de “A Natureza e o Tempo (o Mundo)” trata desses tempos, dos quais restam apenas vestígios muito parciais e esparsos, que dão lugar a hipóteses muitas vezes mais imaginativas sobre esse passado distante do que de fato conclusões racionais. Hipóteses que, mais do que desvendar esses tempos, elucidam o modo como desejamos nos narrar e nos ver no mundo.

A narrativa das origens mobilizou a imaginação e as certezas de grande parte das culturas, inclusive aquelas industriais das quais o que chamamos de contemporâneo emerge. O modo de estar lá, onde ninguém esteve, define muito do modo como pensamos e queremos estar onde estamos, e como vislumbramos nosso devir.

ARTIGOS

O BISÃO NA CAVERNA (ARTEFATOS E ARTIFÍCIOS). Euler Sandeville Jr. Ensaio problematizado narrativas das origens e a tensão entre criação e evolucionismo.

ENXERGAR O FUNDO DO LAGO PARA VER DURANTE A TEMPESTADE (sobre criacionismo e evolucionismo, disputas sobre as origens e o presente). Euler Sandeville Jr. Página sobre criacionismo e evolucionismo, disputas sobre as origens e o presente.

A Aurora na Neblina evidencia um tempo imerso no silêncio, em que procuramos recolocar em ordem um mundo passado coerente com nossa época, através de um imaginativo e progressivo dar voz a esses vestígios emudecidos do nosso mundo e da nossa própria natureza. É necessário lembrar, sobretudo, o esforço de imaginação e subordinação aos preceitos de uma época a que esses testemunhos misteriosos e instigantes do passado nos estimulam, ao termos a necessidade de condicionar suas explicações consoante aos nossos pressupostos intelectuais.

Antes da nossa, diversas sociedades constituíram ricas narrativas das origens. Obviamente não me refiro aqui aos testemunhos pré-históricos, mas a narrativas ancestrais como o Enuma Elish, Gilgamesh, o Livro do Gênesis, os Vedas e outros tantos, sem com isso querer igualar sua significação profunda. De modo algum são a mesma coisa e a chave do mítico, que modernamente com frequência lhes atribuímos, faz escapar-nos seus sentidos próprios e de uma longa duração. Apenas com isso desejo indicar como a busca de sentido atravessa “nossa” milenar jornada e nossa construção de artefatos materiais e intelectuais.

Situando-nos na contemplação do passado a partir do nosso peculiar e tão recente presente. Os exemplos a seguir podem ajudar-nos a perceber o rico campo imaginativo em que tanto estudamos quanto inventamos – e consumimos -, as nossas narrativas do passado. A interpretação das nossas origens é dependente dos complexos impasses, disputas e certezas ontológicos e conceituais que se constituíram na formação da mentalidade contemporânea remontando pelo menos aos séculos XVIII e XIX.

A descoberta no século XIX da arte parietal das cavernas suscitou grandes discussões. Isso porque não se coadunava facilmente, em um primeiro momento, com o pensamento acerca da evolução biológica e sociocultural do homem. Em 1868 um caçador chamado Modesto Cubillas tentava libertar seu cão que ficara preso nas fendas. Descobriu vestígios do que viria a ser uma das mais surpreendentes descobertas arqueológicas acerca do homem pré-histórico.

Marcelino Sanz de Sautuola (1831 — 1888), aficionado em paleontologia, desde 1876 visitou o local.  Em 1878, buscando escavar restos de ossos e sílex como os que vira na Exposição Universal de Paris naquele mesmo ano, foi acompanhado de sua filha de 8 anos, Maria Sanz de Sautola y Escalante (1871-1946). A menina chegou a uma das “salas” interiores com as pinturas parietais, chamando o pai para ver as estranhas pinturas.

Maria Sanz de Sautola y Escalante. Disponível em pt.wikipedia.org/wiki/Marcelino_Sanz_de_Sautuola#/media/File:Sanz_de_Sautuola.jpg e https://pt.wikipedia.org/wiki/Caverna_de_Altamira sob licença livre.

Marcelino Sanz de Sautuola. Disponível em pt.wikipedia.org/wiki/Marcelino_Sanz_de_Sautuola#/media/File:Sanz_de_Sautuola.jpg e https://pt.wikipedia.org/wiki/Caverna_de_Altamira sob licença livre.

Sautola estava convencido de serem pré-históricas, mas totalmente inéditas em relação ao que se havia descoberto até então. Em decorrência, publicou em 1880 o Breves apontes sobre alguns objetos pré-históricos da província de Santander. Porém, para sua longa aflição, a descoberta era inteiramente inconsistente com as certezas da época sobre a evolução humana e das culturas e surpreendente demais para não ser senão uma produção muito posterior. Não se encaixava. Os maiores especialistas recusaram veementemente seu trabalho.

Sautola morreu em 1888 completamente desacreditado nos círculos científicos mais influentes. Entretanto, rapidamente novas descobertas forçavam a uma revisão das certezas, que viriam a  exigir que se enquadrassem esses novos testemunhos que se multiplicavam em um quadro interpretativo, uma vez que se considerava agora comprovada a sua antiguidade. Os horizontes do “homem primitivo” se alargavam, bem como suas habilidades.

Em 1902 um dos maiores críticos de Sautola publicaria o artigo La grotte d’Altamira. Mea culpa d’un sceptique (A caverna de Altamira. Mea culpa de um cético). Infelizmente Sautola não usufruiu a reabilitação de suas ousadias. Mas a pequena Maria, já então com com 22 anos a essa altura, certamente tomou conhecimento da valorização da descoberta que fizera tão precocemente com seu pai, e que tantos dissabores lhe trouxe estar à frente da ciência que ajudava a construir.

Seja como for, 14 anos após a morte de Sautola, esse acervo magnífico passou a integrar de modo coerente toda a compreensão contemporânea das origens. Em 1985 Altamira foi declarada Patrimônio da Humanidade.

Vejamos mais exemplo, que fala desses tempos antigos, mas falam ainda mais de nós mesmos. A Caverna de Chauvet foi descoberta por acaso por espeleólogos amadores em 1994. Sua pintura parietal, de modo ainda mais surpreendente, chega a ser datada em cerca de 36.000 anos atrás. Observe com atenção as duas fotos a seguir, com a finalidade de nos reconhecermos nesses rostos do passado.

Réplica (inclusive das pinturas e artefatos) da caverna de Chauvet, interior, para preservar o sítio arqueológico. Inaugurada em abril de 2015, em tamanho real. Disponível em dw.com/pt-br/fran%C3%A7a-inaugura-r%C3%A9plica-da-caverna-de-chauvet/a-18407392 O sítio não indica na data visitada restrição ao uso de imagens e disponibiliza links de compartilhamento.

Réplica (inclusive das pinturas e artefatos) da caverna de Chauvet, exterior, para preservar o sítio arqueológico. Inaugurada em abril de 2015, em tamanho real. Disponível em dw.com/pt-br/fran%C3%A7a-inaugura-r%C3%A9plica-da-caverna-de-chauvet/a-18407392 O sítio não indica na data visitada restrição ao uso de imagens e disponibiliza links de compartilhamento.

Sintamo-nos convidados a adentrar nesta seção a longa antiguidade dos mundos.

Cientistas descobrem flor ‘intacta’ em fóssil de 15 milhões de anos [16/02/2016]. “Pesquisadores da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, descreveram uma nova espécie de planta graças à descoberta de flores fossilizadas dentro de pedaços de âmbar que têm pelo menos 15 milhões de anos. (…) A nova planta, batizada de Strychnos electri, pertence ao gênero de arbustos tropicais e árvores conhecidos por produzir a toxina estricnina. (…) Mas essas plantas também são da família das “asterídeas”, que inclui mais de 80 mil plantas floríferas – até mesmo muitas que são de consumo humano, como a batata, o café e o girassol”. Disponível em noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/bbc/2016/02/16/cientistas-descobrem-flor-intacta-em-fossil-de-15-milhoes-de-anos.htm acesso em 17/02/2016, a mesma matéria, com mesmo título Disponível em bbc.com/portuguese/noticias/2016/02/160216_flor_fossil_descoberta_fn.shtml?ocid=socialflow_twitter

 

______________________
NOTAS

1 Frase utilizada em certo mapa medieval. Era comum na cartografia medieval também a representação de dragões e criaturas sobrenaturais. No entanto, a frase também é utilizada por programadores. No Mozilla Firefox a frase aparece quando se digita “about:config” acessando o ambiente de programação do navegador. informação disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Hic_sunt_dracones↑.

2 FAURE, Élie [1873-1937]. A arte antiga [1909]. Trad Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 1990

 


como citar:
SANDEVILLE JR., Euler. “A aurora na neblina. Nossa Terra incognita: amnésia e imaginação: hic sunt dracones“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2017. Disponível em  https://anaturezaeotempo.net.br/2018/07/29/a-aurora-na-neblina/ acesso em XX/XX/20XX.

[para citar este artigo conforme normas acadêmicas, copie e cole a referência acima (atualize dia, mês, ano da visita ao sítio)]


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Foto Euler Sandeville, Folha, detalhe, 2009.

Folha, detalhe. Foto de Euler Sandeville, 2009.

 

 

 

 

 

 

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