o bisão na caverna (artefatos e artifícios)

O BISÃO NA CAVERNA (A AURORA NA NEBLINA – ARTEFATOS E ARTIFÍCIOS)
Euler Sandeville Jr.
nova versão 16/06/20171

 

Bison antiquus, espécie da América do Norte. “Durante a época posterior Pleistoceno, entre 240 mil e 220 ​​mil anos atrás, Bisonte-da-estepe, migraram da Sibéria para o Alasca. Esta espécie habitou partes do norte da América do Norte durante todo o restante do Pleistoceno. No entanto, Bison priscus foi substituído pelo Bisão-de-cornos-longos, Bison latifrons, e um pouco mais tarde por Bison antiquus. Os maiores B. latifrons parece ter morrido por cerca de 20.000 anos atrás. Em contraste, B. antiquus tornou-se cada vez mais abundante em partes da América do Norte a partir de 18.000 até cerca de 10.000 anos,[2] after which the species appears to have given rise to the living species, Bison bison, após o qual a espécie parece ter dado origem às espécies vivas, Bison bison” (disponível em pt.wikipedia.org/wiki/Bis%C3%A3o-antigo acesso em 07/05/2016). Por David Monniaux – self photo, CC BY-SA 3.0, commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2939310 acesso em 07/03/2016.

Nesta seção entramos, pela imaginação estimulada por uma informação arduamente construída, na aurora nebulosa dos tempos. É um “lugar” sem respostas finais. A neblina através da qual procuramos entrever esse passado, imenso e longínquo, permanece obscurecendo nossos conhecimentos e certezas. Daí o título desta primeira seção, “A Aurora na Neblina”. É, como parece ser, poético.

Toda discussão sobre as origens tem em seu fundo o questionamento de como viemos a existir, e de como chegamos a ser como somos; no limite, coloca-se qual o sentido – ou ausência de sentido -, de nossa existência. Mas, aqui, reconhecendo essa dimensão das narrativas sobre a(s) origem(ns), o que se busca não é uma indagação ontológica ou existencial da nossa origem. Essa indagação deve ser construída a cada momento, não em um passado que se perdeu da memória senão em fragmentos tênues que nos chegam.

Portais da consciência. Criação de Euler Sandeville, 2011, montagem de fotos do autor . Gruta do Janelão: Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, Januária, Itacarambi e São João das Missões, todas na região norte de Minas Gerais, 2000. Hospital Psiquiátrico do Juqueri, antigo alojamento da Colônia de Alienados, área de labor-terapia, Franco da Rocha, SP. Foto Euler Sandeville, 2004.

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enxergar o fundo do lago para ver durante a tempestade… (sobre criacionismo e evolucionismo, disputas sobre as origens e o presente)

ENXERGAR O FUNDO DO LAGO PARA VER DURANTE A TEMPESTADE…
(sobre criacionismo e evolucionismo, disputas sobre as origens e o presente)
Euler Sandeville Jr.
Junho de 2017 [1 *notas no fim da página]

Lago no Caraça, MG, foto Euler Sandeville Jr. ago, 2010.

Qual é a origem de nosso mundo e como é a origem dos homens nesse mundo? Continuar lendo

a aurora na neblina

OS TEMPOS E OS MUNDOS: SOBRE A ANTIGUIDADE DOS MUNDOS
Euler Sandeville Jr.
Junho de 2017 (definição da seção março de 2016), reorganização setembro de 2018.

 

I. A AURORA NA NEBLINA (os relatos das origens, até o neolítico)
Nossa Terra incognita: amnésia e imaginação: hic sunt dracones [1]

“Um povo é como um homem. Quando desaparece, nada mais resta dele, se não tiver tomado o cuidado de deixar sua impressão nas pedras do caminho” (Élie Faure [2]).

Com a frase acima Élie Faure, em sua “A Arte Antiga” (1909) [2] , encerra o capítulo que trata da arte paleolítica e neolítica. Esta seção de “A Natureza e o Tempo (o Mundo)” trata desses tempos, dos quais restam apenas vestígios muito parciais e esparsos, que dão lugar a hipóteses muitas vezes mais imaginativas sobre esse passado distante do que de fato conclusões racionais. Hipóteses que, mais do que desvendar esses tempos, elucidam o modo como desejamos nos narrar e nos ver no mundo.

A narrativa das origens mobilizou a imaginação e as certezas de grande parte das culturas, inclusive aquelas industriais das quais o que chamamos de contemporâneo emerge. O modo de estar lá, onde ninguém esteve, define muito do modo como pensamos e queremos estar onde estamos, e como vislumbramos nosso devir.

ARTIGOS

O BISÃO NA CAVERNA (ARTEFATOS E ARTIFÍCIOS). Euler Sandeville Jr. Ensaio problematizado narrativas das origens e a tensão entre criação e evolucionismo.

ENXERGAR O FUNDO DO LAGO PARA VER DURANTE A TEMPESTADE (sobre criacionismo e evolucionismo, disputas sobre as origens e o presente). Euler Sandeville Jr. Página sobre criacionismo e evolucionismo, disputas sobre as origens e o presente.

A Aurora na Neblina evidencia um tempo imerso no silêncio, em que procuramos recolocar em ordem um mundo passado coerente com nossa época, através de um imaginativo e progressivo dar voz a esses vestígios emudecidos do nosso mundo e da nossa própria natureza. É necessário lembrar, sobretudo, o esforço de imaginação e subordinação aos preceitos de uma época a que esses testemunhos misteriosos e instigantes do passado nos estimulam, ao termos a necessidade de condicionar suas explicações consoante aos nossos pressupostos intelectuais.

Antes da nossa, diversas sociedades constituíram ricas narrativas das origens. Obviamente não me refiro aqui aos testemunhos pré-históricos, mas a narrativas ancestrais como o Enuma Elish, Gilgamesh, o Livro do Gênesis, os Vedas e outros tantos, sem com isso querer igualar sua significação profunda. De modo algum são a mesma coisa e a chave do mítico, que modernamente com frequência lhes atribuímos, faz escapar-nos seus sentidos próprios e de uma longa duração. Apenas com isso desejo indicar como a busca de sentido atravessa “nossa” milenar jornada e nossa construção de artefatos materiais e intelectuais.

Situando-nos na contemplação do passado a partir do nosso peculiar e tão recente presente. Os exemplos a seguir podem ajudar-nos a perceber o rico campo imaginativo em que tanto estudamos quanto inventamos – e consumimos -, as nossas narrativas do passado. A interpretação das nossas origens é dependente dos complexos impasses, disputas e certezas ontológicos e conceituais que se constituíram na formação da mentalidade contemporânea remontando pelo menos aos séculos XVIII e XIX.

A descoberta no século XIX da arte parietal das cavernas suscitou grandes discussões. Isso porque não se coadunava facilmente, em um primeiro momento, com o pensamento acerca da evolução biológica e sociocultural do homem. Em 1868 um caçador chamado Modesto Cubillas tentava libertar seu cão que ficara preso nas fendas. Descobriu vestígios do que viria a ser uma das mais surpreendentes descobertas arqueológicas acerca do homem pré-histórico.

Marcelino Sanz de Sautuola (1831 — 1888), aficionado em paleontologia, desde 1876 visitou o local.  Em 1878, buscando escavar restos de ossos e sílex como os que vira na Exposição Universal de Paris naquele mesmo ano, foi acompanhado de sua filha de 8 anos, Maria Sanz de Sautola y Escalante (1871-1946). A menina chegou a uma das “salas” interiores com as pinturas parietais, chamando o pai para ver as estranhas pinturas.

Maria Sanz de Sautola y Escalante. Disponível em pt.wikipedia.org/wiki/Marcelino_Sanz_de_Sautuola#/media/File:Sanz_de_Sautuola.jpg e https://pt.wikipedia.org/wiki/Caverna_de_Altamira sob licença livre.

Marcelino Sanz de Sautuola. Disponível em pt.wikipedia.org/wiki/Marcelino_Sanz_de_Sautuola#/media/File:Sanz_de_Sautuola.jpg e https://pt.wikipedia.org/wiki/Caverna_de_Altamira sob licença livre.

Sautola estava convencido de serem pré-históricas, mas totalmente inéditas em relação ao que se havia descoberto até então. Em decorrência, publicou em 1880 o Breves apontes sobre alguns objetos pré-históricos da província de Santander. Porém, para sua longa aflição, a descoberta era inteiramente inconsistente com as certezas da época sobre a evolução humana e das culturas e surpreendente demais para não ser senão uma produção muito posterior. Não se encaixava. Os maiores especialistas recusaram veementemente seu trabalho.

Sautola morreu em 1888 completamente desacreditado nos círculos científicos mais influentes. Entretanto, rapidamente novas descobertas forçavam a uma revisão das certezas, que viriam a  exigir que se enquadrassem esses novos testemunhos que se multiplicavam em um quadro interpretativo, uma vez que se considerava agora comprovada a sua antiguidade. Os horizontes do “homem primitivo” se alargavam, bem como suas habilidades.

Em 1902 um dos maiores críticos de Sautola publicaria o artigo La grotte d’Altamira. Mea culpa d’un sceptique (A caverna de Altamira. Mea culpa de um cético). Infelizmente Sautola não usufruiu a reabilitação de suas ousadias. Mas a pequena Maria, já então com com 22 anos a essa altura, certamente tomou conhecimento da valorização da descoberta que fizera tão precocemente com seu pai, e que tantos dissabores lhe trouxe estar à frente da ciência que ajudava a construir.

Seja como for, 14 anos após a morte de Sautola, esse acervo magnífico passou a integrar de modo coerente toda a compreensão contemporânea das origens. Em 1985 Altamira foi declarada Patrimônio da Humanidade.

Vejamos mais exemplo, que fala desses tempos antigos, mas falam ainda mais de nós mesmos. A Caverna de Chauvet foi descoberta por acaso por espeleólogos amadores em 1994. Sua pintura parietal, de modo ainda mais surpreendente, chega a ser datada em cerca de 36.000 anos atrás. Observe com atenção as duas fotos a seguir, com a finalidade de nos reconhecermos nesses rostos do passado.

Réplica (inclusive das pinturas e artefatos) da caverna de Chauvet, interior, para preservar o sítio arqueológico. Inaugurada em abril de 2015, em tamanho real. Disponível em dw.com/pt-br/fran%C3%A7a-inaugura-r%C3%A9plica-da-caverna-de-chauvet/a-18407392 O sítio não indica na data visitada restrição ao uso de imagens e disponibiliza links de compartilhamento.

Réplica (inclusive das pinturas e artefatos) da caverna de Chauvet, exterior, para preservar o sítio arqueológico. Inaugurada em abril de 2015, em tamanho real. Disponível em dw.com/pt-br/fran%C3%A7a-inaugura-r%C3%A9plica-da-caverna-de-chauvet/a-18407392 O sítio não indica na data visitada restrição ao uso de imagens e disponibiliza links de compartilhamento.

Sintamo-nos convidados a adentrar nesta seção a longa antiguidade dos mundos.

Cientistas descobrem flor ‘intacta’ em fóssil de 15 milhões de anos [16/02/2016]. “Pesquisadores da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, descreveram uma nova espécie de planta graças à descoberta de flores fossilizadas dentro de pedaços de âmbar que têm pelo menos 15 milhões de anos. (…) A nova planta, batizada de Strychnos electri, pertence ao gênero de arbustos tropicais e árvores conhecidos por produzir a toxina estricnina. (…) Mas essas plantas também são da família das “asterídeas”, que inclui mais de 80 mil plantas floríferas – até mesmo muitas que são de consumo humano, como a batata, o café e o girassol”. Disponível em noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/bbc/2016/02/16/cientistas-descobrem-flor-intacta-em-fossil-de-15-milhoes-de-anos.htm acesso em 17/02/2016, a mesma matéria, com mesmo título Disponível em bbc.com/portuguese/noticias/2016/02/160216_flor_fossil_descoberta_fn.shtml?ocid=socialflow_twitter

 

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NOTAS

1 Frase utilizada em certo mapa medieval. Era comum na cartografia medieval também a representação de dragões e criaturas sobrenaturais. No entanto, a frase também é utilizada por programadores. No Mozilla Firefox a frase aparece quando se digita “about:config” acessando o ambiente de programação do navegador. informação disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Hic_sunt_dracones↑.

2 FAURE, Élie [1873-1937]. A arte antiga [1909]. Trad Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 1990

 


como citar:
SANDEVILLE JR., Euler. “A aurora na neblina. Nossa Terra incognita: amnésia e imaginação: hic sunt dracones“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2017. Disponível em  https://anaturezaeotempo.net.br/2018/07/29/a-aurora-na-neblina/ acesso em XX/XX/20XX.

[para citar este artigo conforme normas acadêmicas, copie e cole a referência acima (atualize dia, mês, ano da visita ao sítio)]


núcleo de estudos da paisagem
a natureza e o tempo (o mundo)
um projeto de euler sandeville

 

 

Foto Euler Sandeville, Folha, detalhe, 2009.

Folha, detalhe. Foto de Euler Sandeville, 2009.