A reta e a curva, a estética da paisagem

A RETA E A CURVA: A ESTÉTICA DA PAISAGEM?
Euler Sandeville Jr. (1996)
[notas no fim da página, referência para citação no fim da página]

artigo original (o link abaixo abre em outra janela, mesmo que prefira ler aqui, não deixe de visitar o artigo publicado):

SANDEVILLE JUNIOR, Euler. A reta e a curva, a estética da paisagem? Paisagem e Ambiente, São Paulo, v. 8, p. 147-173, 1996.  Núcleo de Estudos da Paisagem, on line, São Paulo, 1996. Disponível em http://www.revistas.usp.br/paam/article/view/133829/129696↑ acesso em 18 de fevereiro de 2018

 


RESUMO

Há uma ideia comum de que o “paisagismo formal” seja uma expressão autoritária do domínio humano sobre a natureza e de que o “paisagismo informal” expresse identificação com a natureza. Este texto procura evidenciar o campo simbólico por trás desses estereótipos recorrentes na história e teoria do projeto paisagístico. Polarizações semelhantes também ocorrem no campo da edificação e do urbanismo, mostrando que a tensão entre o formal e o informal, ou o racional e o orgânico, ou a reta e a curva como a designamos aqui, se torna veículo de conteúdos que transcendem em muito o campo estrito do desenho. A compreensão desse campo simbólico é necessária para uma justa apreciação das obras-primas do passado e para a investigação da relação histórica entre projeto, natureza e cultura, tema tão pertinente ao paisagismo.

ABSTRACT

There here are a common compreension in landscape architecture that formal design is like a hard human dominance over nature and the organic or informal landscape means total identification with nature. Then I think that the understanding of the simbolism in landscape architecture is basic to our compreension of the past masterpiece and to the compreension of the historic relationship between nature, culture and design that is the base to studies about landscape architecture. The kind of contrasts like straight line against curve lines, the rational aganist the organic, are also very common in architecture and urban design and my intention in this paper is to introduce my thinking about these.

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mundus novus (cerca 1054 a 1750/1774)

OS TEMPOS E OS MUNDOS: SOBRE A ANTIGUIDADE DOS MUNDOS
Euler Sandeville Jr.

 

III. MUNDUS NOVUS (cerca 1054 a 1750/1774)
A Longa Idade Média e a nova antiguidade
A invenção da Europa. Do sobrenatural à natureza.

O título da seção é inspirado na carta de Américo Vespúcio, Mundus Novus. Carta a Lorenzo di Piefrancesco dei Medici. [1]

1260. Raiz Jesse com Maria e Criança; Miniatura do Scherenberg Psalter, manuscrito em pergaminho, 158 folhas, 18,5 x 13 cm; Estrasburgo, c. 1260. Badische Landesbibliothek, Cod. St. Peter perg. 139, folha 7v. Disponível em pt.wikipedia.org/wiki/Árvore_de_Jessé

Transcrições e traduções de documentos:

[ 1054/1073 a 1257 ]       [ 1258 a 1414 ]

[ 1415 a 1491 ]       [ 1492/1497 a 1542 ]

1543/1563 a 1648 ]       [ 1648 a 1750/1774 ]

ARTIGOS

MUNDUS NOVUS. Euler Sandeville Jr. Página de abertura da seção.

SANDEVILLE JR., Euler; DERNTL, Maria Fernanda. Imagens de uma capital: Paris nas perspectivas vôo-de-pássaro entre os séculos XVI e XVIII. Risco: Revista de Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo (Online), São Carlos, n. 5, p. 53-62, jan. 2007. ISSN 1984-4506. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/risco/article/view/44689↑>. Acesso em: 26 feb. 2018. doi:http://dx.doi.org/10.11606/issn.1984-4506.v0i5p53-62↑.

ARTIGOS: TEMAS TRANSVERSAIS

SANDEVILLE JR., Euler. “Visões artísticas da cidade e a gênese da paisagem contemporânea. (2011). Anais do Encontro Nacional de Antropologia e Performance. São Paulo: Napedra/FFLCH/USP, 2012. [Tema transversal].

SANDEVILLE JR., Euler. A reta e a curva, a estética da paisagem? Paisagem e Ambiente, São Paulo, v. 8, p. 147-173, 1996. Núcleo de Estudos da Paisagem, on line, São Paulo, 1996. Artigo como foi publicado disponível em http://www.revistas.usp.br/paam/article/view/133829/129696↑ acesso em 18 de fevereiro de 2018. [Tema transversal].

Como imagens nesta abertura desta seção, ofereço-lhes mais três cenas. São cenas  de almoço muito sofisticadas,reproduzidas abaixo, onde a refeição é tanto ordem social quanto é inserida em uma ordem cósmica ou do destino humano.

Como você poderá verificar, esses almoços não são em nada comparáveis, nem na finalidade, enredo, técnica e suporte, contexto social. As datas de realização abrem e fecham o quatrocentos, o que obviamente não dá conta da complexidade das relações sociais e do imaginário dessa “Longa Idade Média” ou “Era Moderna”, mas é suficiente para ilustrar que ambas indicam temporalidades ampliadas para muito antes e depois da data estrita de sua criação.

A primeira, dos irmãos Limbourg (Herman, Paul, e Jean, todos falecidos com menos de 30 anos em 1416, juntamente com Jean de Berry) integra o extraordinário Les très riches heures du duc de Berry (literalmente, As muito ricas horas do Duque Jean de Berry). O Duque (1340-1416) era filho do rei João II e irmão de Carlos V da França, de Luis I de Nápoles (Duque de Anjou, 1339-1384) e de Filipe II (Duque de Borgonha, 1342-1404). Depois dos irmãos Limbourg trabalharam também no livro Jean Colombe (1430-1493) e possivelmente Barthélemy van Eyck (c. 1420-posterior a 1470).

Frères de Limbourg, Les très riches heures du duc de Berry, mês de janeiro, museu Condé, Chantilly, ms.65, f.1v, c. 1411-1416.
This is a faithful photographic reproduction of a two-dimensional, public domain work of art. The work of art itself is in the public domain for the following reason: This work is in the public domain in its country of origin and other countries and areas where the copyright term is the author’s life plus 100 years or less. Disponível em commons.wikimedia.org/wiki/File:Les_Tr%C3%A8s_Riches_Heures_du_duc_de_Berry_Janvier.jpg acesso em 14/03/2016.

Esses Livros de Horas eram devocionais, com o calendário eclesiástico e orações nas horas canônicas do dia. Nesse livro específico, destacam-se os castelos, paisagens e cenas laicas de divertimentos, inseridas em um campo zodiacal, indicando o movimento dos astros na passagem do ano. O mês de janeiro, reproduzido abaixo, retrata um banquete de ano novo, com o Duque à direita. Repare-se sua posição solene, em perfil, com o manto azul estampado estendendo-se sob a mesa, equilibrando-se com o personagem e com o azul do zodíaco acima, pontuando-se por toda a magnífica ilustração os azuis, vermelhos, dourados e branco.

“São duzentos e seis fólios, dos quais mais da metade são ilustrações de página inteira em um formato de 21 centímetros de largura por 29 centímetros de altura. Os pigmentos eram obtidos de matéria mineral ou por processos químicos, usando a goma-arábica como cola. Por exemplo, o verde era obtido a partir de malaquita e o azul de lápis-lazúli. Produtos obtidos a um preço considerável no Médio Oriente.” (Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Les_tr%C3%A8s_riches_heures_du_duc_de_Berry).

As ilustrações seguintes reproduzem O Banquete de Casamento (Nastagio Degli Onesti, de 1483), do pintor florentino Sandro Botticelli (1445-1510). São quatro pinturas realizadas em torno de 1483, dando visualidade a uma das novelas do Decameron (1348-1353) de Giovanni Boccaccio (1313-1375). A obra foi encomendada por Lorenzo il Magnifico de’ Medici (1449-1492) para o casamento de seu sobrinho, Gianozzo Pucci, com Lucrecia Bini, em 1483.

Nos dois primeiros quadros o jovem Nastagio, rejeitado pela amada Paola Traversari (como convinha ao amor cortês de Petrarca e Dante, mas dele escapando por um artifício que leva ao enlace matrimonial), contempla cena brutal, retratando a loucura do amor paixão e sua condenação ao fim trágico. Como a cena se repetia infinitamente, Nastagio organiza um banquete, no qual sua amada, ardilosamente é impactada pelo trágico fim do amor e do ciúme, e cede ao casamento com o jovem, dando lugar então ao banquete de casamento. Estes dois quadros, ambos almoços ao ar livre, também estão reproduzidos abaixo.

Devoção, paixão, matrimônio, convívio social e enquadramento em uma paisagem que é cósmica e civilizatória, expondo o destino e o artifício humanos, bem como sua submissão a uma ordem social que deve prevalecer. Bom almoço aos convidados.

O Banquete na Floresta (Nastagio Degli Onesti), de 1483, têmpera sobre tela, 0,83 m x 1,42 m, de Sandro Botticelli (Alessandro di Mariano di Vanni Filipepi, 1445-1510).
Disponível em pt.wikipedia.org/wiki/Nastagio_Degli_Onesti#/media/File:Sandro_Botticelli_075.jpg e pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Botticelli,_nastagio4.jpg acesso em 26/03/2017. Este material é de domínio público nos países onde os direitos autorais se estendem por 100 anos (ou menos) após a morte de seu autor. A posição oficial da Wikimedia Foundation é que «reproduções fiéis de obras de arte bidimensionais que estejam do domínio público estão também no domínio público e que reivindicações em contrário constituem um ataque ao próprio conceito de um domínio público». Para mais detalhes, consulte Commons: Quando usar a marcação PD-Art. Portanto, é considerado que esta reprodução fotográfica está também no domínio público.

O primeiro banquete se dá às portas da floresta em que se desenrola a trágica cena, que invade e desorganiza o encontro. O segundo almoço já é o do casamento, se dá em um contexto que tem uma cidade no horizonte, enquadrado em um cenário solene de uma galeria clássica com um arco do triunfo ao fundo. No capitel à frente se vêm os brasões das famílias Pucci, Medici e Bini.

O Banquete de Casamento (Nastagio Degli Onesti), de 1483, têmpera sobre tela, 0,83 mx 1,42m, de Sandro Botticelli (Alessandro di Mariano di Vanni Filipepi, 1445-1510).
Disponível em pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Botticelli,_nastagio4.jpg acesso em 26/03/2017. Este material é de domínio público nos países onde os direitos autorais se estendem por 100 anos (ou menos) após a morte de seu autor. A posição oficial da Wikimedia Foundation é que «reproduções fiéis de obras de arte bidimensionais que estejam do domínio público estão também no domínio público e que reivindicações em contrário constituem um ataque ao próprio conceito de um domínio público». Para mais detalhes, consulte Commons: Quando usar a marcação PD-Art. Portanto, é considerado que esta reprodução fotográfica está também no domínio público.

 

 

 

 

Foto Euler Sandeville, Folha, detalhe, 2009.

Folha, detalhe. Foto de Euler Sandeville, 2009.

 

NOTAS

[1] VESPÚCIO, Américo. Mundus Novus. Carta a Lorenzo di Piefrancesco dei Medici. In BUENO, Eduardo (org.). Novo Mundo. As cartas que batizaram a América. Introdução e notas Eduardo Bueno. Tradução das cartas João Angelo Oliva, Janaina Amado Figueiredo e Luís Carlos Figueiredo. São Paulo, Editora Planeta do Brasil, 2003, pg 33 a 61.

 


 

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núcleo de estudos da paisagem
a natureza e o tempo (o mundo)
um projeto de euler sandeville

 

 

 

 

 

 

 

visões artísticas da cidade e a gênese da paisagem contemporânea

visões artísticas da cidade e a gênese da paisagem contemporânea
Euler Sandeville Jr.
Versão inicial 2011. Publicado em 2013, ano 2012
Tema transversal (séculos XVI-XX)

como citar:
SANDEVILLE JR., Euler. “Visões artísticas da cidade e a gênese da paisagem contemporânea”. (2011). Anais do Encontro Nacional de Antropologia e Performance. São Paulo: Napedra/FFLCH/USP, 2012.

apresentação

Há várias abordagens para interpretar a cidade. Podemos pensá-la como morfologia e tipologia (SOLÁ- MORALES I RUBIÓ 1997, PANERAI et al. 1983), como dinâmicas ambientais (SPIRN 1995, HOUGH 2004), como estruturas urbanas que suportam as mais diversas práticas para produção, circulação e consumo (VILLAÇA 2001, LEFEBVRE 2001), como espaços da vida, da intersubjetividade e espaços de poder (CALDEIRA 1984, VOGEL e SANTOS 1985), como normatização e regulamentação (MEIRELLES 1981), como história (SICA 1981, BENEVOLO 1983), como espaços de transgressão (DÉBORD 1999) e assim por diante. Esses recortes temáticos revelam intencionalidades e posicionamentos que são espaciais, sociais, políticos, e se desdobram na seleção de procedimentos interpretativos e descritivos.

Mas a dimensão sensível da cidade, e da paisagem (CAUQUELIN 2007), aninha-se existencial em sua arquitetura, nos seus espaços lúdicos, nos espaços de convivência e trabalho, nas práticas que os geram para neles se abrigarem, transformando-os. Essa arquitetura da cidade não é apenas visualidade e funcionalidade, nem é apenas economia e política; é experiência, é significada no vivido. O sentido da cidade se dá em suas práticas, nas heranças que abrigam, nas temporalidades em que se constrói a paisagem como lugar, obra histórica e social coletiva, e como múltiplas formas de estar com outros e consigo mesmo (SANDEVILLE JR. 2004, 2005, 2010). É sempre uma cidade que poderia ter sido outra, geralmente melhor em sua qualidade, resultante de nosso trabalho e de nossas decisões. É, portanto, também uma cidade em gestação, que ainda pode ser outra.

alguns aspectos da nossa cidade-arte sensível: fragmentos paisagísticos da paisagem

A arte tem dado inúmeras contribuições à representação e discussão da cidade Continuar lendo

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