1520-Bula Exsurge Domine do Sumo Pontífice Leão X sobre os erros de Martinho Lutero

Bula Exsurge Domine do Sumo Pontífice Leão X sobre os erros de Martinho Lutero

Emitida a 5 de junho de 1520 em resposta às 95 teses de Martinho Lutero e aos seus escritos. Dessas 95, o papa reconhecia como válidas 54 teses, mas pedia que Lutero se retratasse por 41 delas, assim como por outros erros especificados, oferecendo um prazo de 70 dias a partir da sua publicação. O prazo final de 10 de dezembro de 1520 foi o dia em que Lutero queimou a sua cópia da bula juntamente com os volumes do Código de Direito Canônico.

1520-Bulla contra Errores Martini Lutheri et sequacium. Image of the title page of Pope Leo X’s Bull, Exurge Domine, threatening to excommunicate Martin Luther, scanned from a first edition copy in the library of Concordia Theological Seminary by Robert E. Smith. Illustration shows papal version of Medici coat of arms. Disponível em pt.wikipedia.org/wiki/Exsurge_Domine acesso em 09 de setembro de 2018.

Erguei-vos, Senhor, e julgai vossa própria causa. Lembrai-vos de vossas censuras àqueles que estão o dia todo cheios de insensatez. Ouvi nossas preces, pois raposas avançam procurando destruir a vinha em cujo lagar só Vós tendes pisado. Quando estáveis perto de subir a vosso Pai, entregastes o cuidado, norma e administração da vinha, uma imagem da igreja triunfante, a Pedro, como cabeça e vosso vigário e a seus sucessores. Continuar lendo

1523 – 67 Artigos de Zuínglio

OS 67 ARTIGOS DE ZUÍNGLIO (1523)

Ulrico Zuínglio (1484-1531) preparou estes Artigos como pontos de disputa para a Primeira Disputa de Zurique. Esta Disputa ocorreria em 29 de janeiro de 1523. Dependendo da conclusão desta Disputa, o conselho da cidade decidiria ou não adotar o programa reformatório de Zuínglio, o que acabou de fato acontecendo. Para a disputa vieram 600 pessoas que se amontoaram no pequeno salão onde ocorreu. Zuínglio e seus aliados se sentaram diante do ajuntamento em uma mesa que possuía a Septuaginta, o Velho Testamento Hebraico e o Novo Testamento em grego juntamente com uma cópia da Vulgata Latina. Em 14 de julho de 1523 os 67 Artigos e suas explicações foram publicados em Zurique pelo impressor Froschauer.

  1. Todo que diz que o Evangelho é nada sem a sanção da Igreja, erra e blasfema contra Deus. Continuar lendo

a Terra é azul… que mundo é esse? parte 4: nossos novos ícones e nossa nova percepção do mundo

A TERRA AZUL [1] … QUE MUNDO É ESSE?
Parte 4. nossos novos ícones e nossa nova percepção do mundo
Euler Sandeville Jr.
versão inicial 2005/jan 2010/ 21/02/2016 a 05/03/2016. Última atualização: 05/03/2016

 


cite este artigo
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 4: nossos novos ícones e nossa nova percepção do mundo“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse-parte-4-nossos-novos-icones-e-nossa-nova-percepcao-do-mundo/ acesso em DIA/MÊS/ANO.


 

As ameaças da década de 1970, do sistema internacional bipolar, e no Brasil o terror da ditadura e a luta armada, cederam a novos ícones. Inicialmente, esses ícones foram-nos oferecidos como a destruição do muro de Berlim em 1989 e o “esfacelamento” da URSS em 1991. Entre 1989 e 1992 [19], esses fatos emblemáticos alardeavam um “mundo novo”, surgido sobre as ruínas da Guerra Fria. Não deu certo, esse novo mundo.

A União Soviética não existe mais, declarou em 1991 James Baker, secretário de Estado dos EUA. Também não havia mais o Muro de Berlim, de 155 km de extensão, 3,60 metros de altura, dimensões e formas de controle que hoje seriam discretas diante de câmeras, drones, mapeamento contínuo até de dados biomédicos, preferências decorativas de si (e o self), amizades etc. e localização/mobilidade dos cidadãos nas grandes cidades. O Muro nos chocava pela brutalidade, pelo terror emudecedor que se nos oferecia como uma forma de educador invisível. Começara com uma cerca armada em 1961, mesmo ano da tentativa norte-americana de invasão de Cuba, um dos ícones da Guerra Fria.

O mundo evidentemente mudara nas décadas entre 1980 e 1990, todos reconheciam, mas não encontravam prontamente as formas suficientes de um novo posicionamento. Logo, todos os discursos procurariam adaptar-se, reinterpretar e reinterpretar-se para reinserirem-se no que parecia uma nova ordem de coisas.

Estação Espacial MIR1, lançada em 1986, ano também da explosão do ônibus espacial Challenger. Na foto: “12 June 1998 Russia’s Mir space station is backdropped over the blue and white planet Earth in this medium range photograph recorded during the final fly-around of the members of the fleet of NASA’s shuttles. Seven crew members, including Andrew S.W. Thomas, were aboard the Space Shuttle Discovery when the photo was taken; and two of his former cosmonaut crewmates remained aboard Mir. Thomas ended up spending 141 days in space on this journey, including time aboard Space Shuttles Endeavour and Discovery, which transported him to and from Mir. Fonte spaceflight.nasa.gov/gallery/images/shuttle/sts-91/hires/91727051.jpg e (spaceflight.nasa.gov/gallery/images/shuttle/sts-91/html/91727051.html) Original image: NASA/Crew of STS-91 This image or video was catalogued by one of the centers of the United States National Aeronautics and Space Administration (NASA) under Photo ID: STS091-727-051. This tag does not indicate the copyright status of the attached work. ”
Disponível em spaceflight.nasa.gov/gallery/images/shuttle/sts-91/hires/91727051.jpg acesso em 27/02/2016.

“1984, Micrografia eletrônica de varredura de VIH-1, em cor verde, saindo de um linfócito cultivado. Microfotografía con MEB de VIH-1 en liberación (en verde) en un cultivo de linfocitos. Esta imagen ha sido coloreada para resaltar las características importantes; para la imagen original en blanco y negro véase PHIL 1197. Las múltiples protuberancias redondeadas sobre la superficie celular representa los sitios de ensamblado y gemación de viriones. Photo Credit: C. Goldsmith Content Providers: CDC/ C. Goldsmith, P. Feorino, E. L. Palmer, W. R. McManus – This media comes from the Centers for Disease Control and Prevention’s Public Health Image Library (PHIL), with identification number #10000. Note: Not all PHIL images are public domain; be sure to check copyright status and credit authors and content providers.” Disponível em pt.wikipedia.org/wiki/V%C3%ADrus_da_imunodefici%C3%AAncia_humana#/media/File:HIV-budding-Color.jpg Acesso em 27/02/2016.

Em brasustribunaldosbichos.blogspot.com.br/2012/07/pais-inicia-producao-de-animais.html acesso em 27/02/2016, post de 2012, ficamos sabendo que os primeiros animais transgênicos foram camundongos produzidos em 1981:
“Desde então, o genoma do camundongo já foi completamente sequenciado e praticamente todos os seus genes – 95% dos quais são iguais aos do homem – já foram modificados de uma forma ou de outra (…) Só o Laboratório Jackson, um dos maiores fornecedores de camundongos transgênicos do mundo, nos EUA, tem um catálogo com mais de 6 mil variedades e vendeu, só no ano passado, mais de 3 milhões de animais para pesquisadores de 56 países”. No Brasil o primeiro foi produzido em 2000, na USP. O Laboratório de Modificação do Genoma (LMG), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, em Campinas (“Se um cientista precisa de um animal transgênico, ele faz a encomenda, fornece as especificações, o LMG produz o animal e manda para ele. Tal qual um escritório de engenharia executa um projeto para um arquiteto”), já produziu cerca de 50 linhagens de camundongos transgênicos, utilizando nove genes diferentes: “Outras 15 linhagens foram importadas do Laboratório Jackson, por US$ 6,5 mil (cerca de US$ 230 por animal). O Estado presenciou a chegada das últimas quatro, no início do mês: oito camundongos em uma caixa de plástico com comida e água em forma de gel. São animais com um grau a mais de complexidade transgênica. Eles têm uma enzima no organismo que funciona como um interruptor molecular, que permite aos cientistas ligar ou desligar as modificações genéticas onde e quando desejarem.”.
Na imagem acima, um uso menos cinetífico. “GloFish”, variedade do peixe Danio rerio geneticamente modificada com adição de um gene do cnidário Aequorea victoria. No sítio da empresa lemos: “GloFish® fluorescent fish are born brilliant! They are not injected or dyed. They inherit their harmless, lifelong color from their parents, and require the same care as any other community fish. GloFish are great for any home, office, or classroom and perfect for hobbyists and beginners alike. GloFish are available in six striking colors: Red, Blue, Green, Purple, Orange, Pink.” Source glofish.com/images/glofish_005.jpg The copyright holder of this file allows anyone to use it for any purpose, provided that the copyright holder is properly attributed. Redistribution, derivative work, commercial use, and all other use is permitted.
Disponível em commons.wikimedia.org/wiki/File:GloFish.jpg acesso em 27/02/2016.

No cotidiano a nossa percepção do mundo também era imensamente impactada. Em 1995 o acesso à World Wide Web (“criada” em 1991) foi possibilitado a partir do estabelecimento dos provedores. Os telefones celulares, introduzidos em 1990 no Brasil, quando havia 667 linhas, chegam a 1.416.500 linhas em 1995. Coisa ainda irrelevante, se considerarmos o boom de aparelhos a partir de 1999 (15.032.698 linhas), atingindo no início de 2004 mais de 47 milhões de linhas e logo depois a cifra impensável (e irreal) de quase “um celular para cada brasileiro” (175,6 milhões de celulares em janeiro de 2010 segundo a Anatel).

Todas essas transformações acima indicadas, e outras igualmente relevantes, quase já não nos permitem lembrar – tão absorvidos e conectados que estamos -, do mundo no qual, até há pouco, muitos de nós viveram. O modo de viver muda, não são apenas hábitos e novos artefatos. São profundas mudanças comportamentais nas expectativas, anseios e medos, nas possibilidades e valores de satisfação, e o que não se percebe tão facilmente, na ética e na própria natureza. Trata-se de um novo mundo, por vezes intratável.

Havia uma outra face, subjacente à euforia anunciada com a queda da Cortina e do Muro, que se mostraria logo no início da primeira década do século 21. Não mais entre bancas de jornais e revistas que coloriam o imaginário dos anos 1960 na canção de Caetano Veloso (Alegria Alegria, de 1967, apresentada no Festival da Record desse ano), mas em um mundo conectado 24 horas por dia. Quem não abre o programa de imeil (e-mail) ao chegar em casa? Aliás, informação já antiquada, os e-mails e redes sociais vibram aos nossos passos, enquanto conversamos, nas reuniões, ao redor da noite. Esta outra face da nossa alardeada “Nova Era” é ainda violenta, mas vem carregada de ambiguidade, emergência, indiferença, como observei em um texto de 2002:

O signo de esperança e liberdade da queda do muro de Berlim em 1989 revela sua face crua, dura, abominável, na ‘primeira guerra do século’, como está sendo chamada. Mudaram-se os jogos e condições, o modo de fazer guerra? Não interessa, aos ataques seguem-se orações, doação de comida e mortes. A polarização Nova Iorque – Cabul põe a descoberto os valores a partir dos quais estamos construindo o planeta para nossos filhos!

A mesma tecnologia que nos permite colocar, neste momento, este trabalho on line disponível ao mundo todo, ou transmitir em “tempo real” uma reunião a qualquer parte do planeta, ou realizá-la em rede entre vários países em “tempo real”, é extensão cotidiana de novas formas de controle, circulação de informação… e morte. A vida, tornada por todos os meios questão de mercado, por isso também de estratégia, é disputada palmo a palmo nos fóruns entre as nações, como nas esquinas das cidades, nos pregões, gabinetes públicos, sindicatos e escritórios.

Essa face sombria da “Nova Era” anunciada – não tão nova como logo se viu, evidenciou-se com o atentado às “torres gêmeas” de Nova Iorque (em 2001), com as subsequentes novas formas de ações estadunidenses no Oriente Médio, e hoje com atentados, refugiados e crimes transmitidos ao vivo on line. [20]

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notas
1 Atualização parcial do texto base do memorial apresentado na Livre Docência em 2010, elaborado a partir de reelaboração crítica de texto de 2005.

19 Em âmbito nacional, o ano de 1984 foi um marco quando a praça passou a ser novamente pública em toda sua extensão, e os estudantes correndo da polícia e se reagrupando aqui e ali da década anterior foram substituídos nas áreas centrais urbanas pelo comício-show-cívico e pela eleição livre para presidente (este, triste memória) em 1989.

20 SANDEVILLE JR., Euler. Memorial para um, ano novo e para um novo milênio. São Paulo: Revista Brasil, 2002b.

 


como citar material desta página:
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 4: nossos novos ícones e nossa nova percepção do mundo“.A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse-parte-4-nossos-novos-icones-e-nossa-nova-percepcao-do-mundo/ acesso em DIA/MÊS/ANO.

[para citar este artigo conforme normas acadêmicas, copie e cole a referência acima (atualize dia, mês, ano da visita ao sítio)]


núcleo de estudos da paisagem
a natureza e o tempo (o mundo)
uma proposta de euler sandeville

 

 

 

 

 

 

a Terra é azul… que mundo é esse? parte 8. para onde nossas decisões nos conduzem (conclusão)

A TERRA AZUL [1] … QUE MUNDO É ESSE?
Parte 8
. para onde nossas decisões nos conduzem (conclusão)?
Euler Sandeville Jr.
versão inicial 2005/jan 2010/ 21/02/2016 a 05/03/2016. Última atualização: 05/03/2016

 


cite este artigo
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 8. para onde nossas decisões nos conduzem (conclusão)?“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse-parte-8-para-onde-nossas-decisoes-nos-conduzem-conclusao/ acesso em DIA/MÊS/ANO.


 

O período aqui referido, desde o final trágico da Segunda Guerra, ultrapassa por pouco 70 anos, quando escrevo este ensaio. Um tempo inferior à duração esperada da vida humana, em uma condição sob muitos aspectos sem precedentes. Da sociedade de consumo e da contracultura à globalização, percebo que mitos como esses não dão conta dos fatos a que se referem.

Quais valores são transformados e transformadores? Quais realidades, hoje, são as que já estão presentes, mas não vemos? Quais são os muros que hoje nos são dados a construir, ainda que discordando?

Lembrar, nesse sentido e em tal contexto, é mais do que nostalgia ou rememorar, é a possibilidade de estar presente em um hoje alongado, de compreender, de atuar em um tempo mais amplo do que aquele oferecido pela técnica e pelo negócio. E cada vez mais também pelo ensino.

Por vezes, tenho a impressão de estar havendo um contínuo lasseamento dos ideais coletivos a par de uma introjeção e institucionalização (normalização?) crescente de formas de controle do comportamento. Mas vejo que não se trata só disso. Mais importante, é o que significa perceber que, também pode ser verdade, os ideais estão tão vivos hoje, quanto sempre estiveram lasseados. Esta última ideia não nos furta a necessidade, sempre posta aos homens, de terem de, cada um à sua época, posicionarem-se perante os valores e práticas. Mas representa a obrigação de percebermos qual a responsabilidade e oportunidade com que nos defrontamos hoje. Em um hoje ampliado, histórico e existencial.

Compreender-me (compreendermo-nos) em mudança propõe-me o problema do que deve permanecer, para que a institucionalização a que somos cobrados seguidamente não se torne conformação, esvaziamento, traição de si mesmo por si mesmo. Como minhas mudanças se inserem nas mudanças em curso? O amadurecimento – sempre associado a compromisso e progresso – é uma forma elaborada de traição do que se foi? Ou o compromisso ainda pode ser uma forma criativa? Amadurecer é conformar-se a esse estado de coisas ou é, justamente, entendendo na medida do possível, preservar valores fundamentais diante de um caudal que se oferece como inexorável?

As questões, como se vê, não são meramente pessoais. Há uma possibilidade de ampliação na distribuição de recursos sociais e um direcionamento que redunda em suas ausências. Há uma padronização dos procedimentos, oportunidades, linguagens, e da sedução do pensamento pela promessa de sua expressão multifacetada em nichos pulverizados, ao enxertar-se no sistema produtivo de bens ditos imateriais, que trariam ganhos materiais e simbólicos a seus operadores, que subordinam-se assim a essa lógica como se fossem peças criativas ocupadas consigo mesmas.

Mas há um engano, o que tratamos aqui não são fenômenos imateriais, de uma causa e origem desconhecida. Estamos imersos neles. São concretos, e portanto, consequentes. Há ainda outro engano, a matéria não esgota-se em si, como a técnica e o negócio parecem querer, nem o imaterial no plano dos pensamentos e desejos como a (inter)subjetividade do self parece propor. Estamos caminhando com muita pressa, como se soubéssemos aonde vamos, e sequer sabemos as consequências desses atos ampliados na multidão.

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notas
1 Atualização parcial do texto base do memorial apresentado na Livre Docência em 2010, elaborado a partir de reelaboração crítica de texto de 2005.

 


como citar material desta página:
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 8. para onde nossas decisões nos conduzem (conclusão)“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse-parte-8-para-onde-nossas-decisoes-nos-conduzem-conclusao/ acesso em DIA/MÊS/ANO.

[para citar este artigo conforme normas acadêmicas, copie e cole a referência acima (atualize dia, mês, ano da visita ao sítio)]


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a natureza e o tempo (o mundo)
uma proposta de euler sandeville

 

 

 

 

 

 

a Terra é azul… que mundo é esse? parte 7. em tempo real

A TERRA AZUL [1] … QUE MUNDO É ESSE?
Parte 7. em tempo real
Euler Sandeville Jr.
versão inicial 2005/jan 2010/ 21/02/2016 a 05/03/2016. Última atualização: 05/03/2016

 


cite este artigo
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 7. em tempo real“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse-parte-7-em-tempo-real/ acesso em DIA/MÊS/ANO.


 

Todas as novidades desse Admirável Mundo de consumo são transmitidas em tempo real pela televisão, pela internet e pela telefonia celular. Ver o homem pousando na Lua ou assistir na TV a copa do mundo de 1970, façanhas notáveis, havia tornado difícil imaginar o evento grandioso que deve ter sido a primeira transmissão de copa do mundo por rádio em 1938! Tão pouco tempo (apenas 32 anos) separa os dois acontecimentos! A partir da década de 1990 uma infinidade de aparatos técnicos invadiu e transformou radicalmente o cotidiano nas capitais brasileiras, e até mesmo a forma de relacionamento pessoal, profissional, produtivo, comercial, afetivo.

Diversos indicadores de consumo e acesso a bens podem ser usados, considerando sua distribuição regional por domicílios, como presença de aparelhos de rádio, televisão, computadores, internet, e outros indicadores. Essa cartografia, com dados obtidos nas pesquisas do IBGE e outros institutos, evidenciam tanto os aspectos de concentração, como os de irradiação que esses bens promovem, já que disseminam padrões de comportamento, sociabilidade e desejos, formam padrões de consumo, consensos, nichos identitários, padrões de linguagem e representação social, valores, com imenso poder de introjeção.

Esther Hamburger [24], 1998, apresenta três mapas com uma evolução dos domicílios com televisão nos anos de 1970 (concentrados sobretudo no Sudeste e com grande densidade no Sul), 1980 (onde se densifica ainda mais no sudeste e no sul, mas com dispersão significativa pelo sul de Minas e Goias e um eixo de expansão noroeste por Mato Grosso do Sul e Rondônia, mas já com ampla dispersão pelo território nacional) e 1990, com uma dispersão por todo o território nacional. Mostram também a disseminação de hábitos de consumo, que vão se tornando corriqueiros na vida cotidiana, cujos fluxos simbólicos e de objetos é complexo no espaço. A Figura 19 ilustra distribuição de televisores por domicílios, baseado em dados do IBGE para 2001. A tabela 1, obtida na mesma fonte, indica a porcentagem de domicílios com telefone, televisão, microcomputador e acesso a internet a partir de 2001.

Porcentagem de televisores por domicílios, baseado em dados do IBGE para 2001.
“É importante observar que a proporção da cobertura da televisão é superior à relativa a geladeiras. Em 2001, a quantidade de domicílios com televisão era de 89,0%, enquanto que a de domicílios com geladeiras era de 85,1%. Já em 2011, estes números alcançaram 97,2% e 95,8%, respectivamente”.
Fonte: O crescimento Socioeconômico do Brasil e a Radiodifusão. ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão). O sítio não apresenta restrição de direitos sobre uso da imagem. Disponível em abert.org.br/web/index.php/dados-do-setor/estatisticas/radiodifusao-socioeconomico acesso em 04/03/2016

Porcentagem de domicílios com rádio, televisão, microcomputador e acesso a internet entre 2001 e 2011, com dados do IBGE.
“Em 2011 (veja o quadro 3.5), existiam mais domicílios com TV (97,20%) do que com rádio (83,80%). Entretanto, na área rural, o rádio se assemelha muito com a televisão em termos de penetração, na proporção de 84,2% para TV e de 82,3% para rádio, isso de acordo com o site especializado Teleco. A grande maioria dos domicílios possui TV a cores (95,3%). Apenas 0,4% dos domicílios possuem TV em preto e branco (2009).”
Fonte: O crescimento Socioeconômico do Brasil e a Radiodifusão. ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão). Disponível em abert.org.br/web/index.php/dados-do-setor/estatisticas/radiodifusao-socioeconomico↑ acesso em 04/03/2016

A exclusão, gradualmente, evidencia-se como é (mais difícil de ser percebida), não se trata de objetos, mas de localizações em sentido amplo, no espaço, no social, nas possibilidades de inserção e fruição. Essa subordinação (ou diálogo em alguns casos) das esferas da sociabilidade à economia, à tecnologia e ao consumo, atinge os hábitos e o corpo. Mais do que isso, não só atinge a natureza imensamente incorporada como símbolo ou recurso a uma lógica institucional e de mercado, como se poderia dizer que a natureza, tal como ainda a conhecemos e entendemos, de certo modo já não existe mais.

A partir de 1996, com a clonagem de Dolly, o imaginário da ficção científica aproxima-se do cotidiano. O avanço dos transgênicos, da clonagem, do comércio de órgãos, o turismo ecológico [25] e agora o orbital, mostram um novo domínio do mercado sobre as esferas da vida e da natureza. Esses avanços tecnológicos recolocam a questão ambiental em um novo paradigma, colhendo plenamente os frutos de sua institucionalização (SANDEVILLE JR. 1999a). Ampliam-se as implicações éticas da nova tecnologia.

A ECO 92, com seu glamour na contradição, foi um desses (entre outros) modos de colocar escancarado diante dos olhos que não veem a natureza desse paradigma, ao fazê-lo a partir de uma necessidade razoável e de uma construção de consenso que se sobrepõe pelo discursivo, tão normativo quanto genérico, quase uma plataforma que agasalha nichos de negócios. Sua construção ideológica na forma atual nem sempre é devidamente avaliada, gerando um consenso curioso em uma época de dissenso consentido. Estende-se por todo o mundo, ou todos os lugares, prevalecendo diferenças importantes em qualquer escala que observarmos.

Enquanto nos divertimos ou trabalhamos, é necessário perguntar e perscrutar: que mundo já está presente e não nos permitimos dar conta?

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notas
1 Atualização parcial do texto base do memorial apresentado na Livre Docência em 2010, elaborado a partir de reelaboração crítica de texto de 2005.

24 HAMBURGER, Esther. Diluindo fronteiras: a televisão e as novelas no cotidiano. In NOVAES, Fernando (org). História da vida privada no Brasil, vol. 4. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

25 Sobre Turismo denominado ecológico: SANDEVILLE JR., Euler, SUGUIMOTO, Flávia Tiemi. Ecoturismo e (Des) Educação Ambiental. Revista Brasileira de Ecoturismo, v.3, p.1, 2010.

 


como citar material desta página:
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 7. em tempo real“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse-parte-7-em-tempo-real/ acesso em DIA/MÊS/ANO.

[para citar este artigo conforme normas acadêmicas, copie e cole a referência acima (atualize dia, mês, ano da visita ao sítio)]


núcleo de estudos da paisagem
a natureza e o tempo (o mundo)
uma proposta de euler sandeville

 

 

 

 

 

 

a Terra é azul… que mundo é esse? parte 6. olhares que não enxergam os fossos

A TERRA AZUL [1] … QUE MUNDO É ESSE?
Parte 6. olhares que não enxergam os fossos
Euler Sandeville Jr.
versão inicial 2005/jan 2010/ 21/02/2016 a 05/03/2016. Última atualização: 05/03/2016

 


cite este artigo
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 6. olhares que não enxergam os fossos“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse-parte-6-olhares-que-nao-enxergam-os-fossos/ acesso em DIA/MÊS/ANO.


 

Em 2015, uma foto registra o confronto da polícia com professores no Paraná (figura 16). Não é possível não considerá-la como montagem, midiática, e nesse caso bastante inteligente, recuperando subliminarmente a foto clássica. Seja montagem ou não, seja produção utilizando a força policial como cenário ou não, seu significado é claro, sua mensagem é direta. Seu objetivo é reproduzir, sob a evidência do registro, um sentimento já assimilado de recusa à violência e de indignação diante da covardia.

A foto em questão circulou nas redes sociais na ocasião e não disponho no momento de maiores informações sobre ela. No entanto, parece-me importante entender o uso midático e a construção da imagem no mundo contemporâneo, seu potencial discursivo. De fato, a foto não representa apenas a violência cometida pelo governador Beto Richa e seu Secretário contra os professores na ocasião.Ela chama para si a competência de um discurso mais amplamente difundido, da resistência à violência e à injustiça.

Ainda no sentido de entender essa construção da imagem, anexo na figura 17 outra foto emblemática. Nesta a pessoa se expõe ao risco, mas não deixa de ser uma remissão à coragem para enfrentar uma força maior, que atua de modo injusto para manter pela violência a injustiça e a discriminação. Tenho em mente as marchas lideradas por Martin Luther King, que, pela fé e pelo direito, estabelece uma rica iconografia de resistência pacífica diante da maldade e da força bruta (figura 18), culminando com a ceifa de sua própria vida. Por uma questão de direitos autorais, fui obrigado a colocar a exaltação midiática e cinematográfica, de algo que foi, em seu momento, como outras coisas relatadas neste capítulo, tecido com o sacrifício de muitas vidas. Vejamos as três fotos:

Imagem realizada durante a greve de professores do Paraná em 2015, duramente reprimida pelo Governo de Beto Richa e seu Secretário da Educação. A foto circulou nas redes sociais em abril de 2015.

Foto Daniel Castellano/Gazeta do Povo. Fonte: Gazeta do Povo 12/02/2016, “Promotoria da Vara Militar pede arquivamento de inquérito sobre Batalha do Centro Cívico”. O sítio não indica restrições ao uso da imagem na data visitada. Disponível em gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/promotoria-da-vara-militar-pede-arquivamento-de-inquerito-sobre-batalha-do-centro-civico-afblqx2lhvatje48rum8xupmr acesso em 05/03/2016

Cartaz de Selma (Selma: Uma Luta pela Igualdade, Brasil). Realização Ava DuVernay, Argumento Paul Webb. Elenco David Oyelowo, Tom Wilkinson, Carmen Ejogo, Tim Roth, Oprah Winfrey. Lançamento EUA 25 de dezembro de 2014, Brasil 5 de fevereiro de 2015. O sítio não indica restrições ao uso da imagem na data visitada. Disponível em politicandors.blogspot.com.br/2015/07/resenha-selma.html acesso em 05/03/2016.

Nem todos os muros que estamos construindo nesse mundo contemporâneo, como talvez se possa perceber, são dados pela negativa da possibilidade de comunicação. Sua potência avassaladora e a distribuição desigual do acesso aos bens sociais freneticamente produzidos criam outros muros, invisíveis, entre nós. São inúmeros, alguns marcados paradoxalmente pela excelência e pela opulência de um lado e pela miséria de outro.

As maiores distâncias, que também existem, não estão de fato nos eventos catastróficos dos jornais e telejornais. Residem em nosso cotidiano, sob a escuridão de olhares que não enxergam os fossos sobre os quais pisam. Referem-se a toda a situação institucional do ensino, da saúde, do saneamento e dos modos de ocupação e transformação do território brasileiro. Temos nossos muros que segregam o espaço coletivo e institucional da cidade, e são tão concretos quanto aqueles que defendem berlinenses, estadunidenses e israelenses de seus vizinhos.

Em 2005, segundo o Censo Escolar, havia 49 milhões de alunos matriculados em nossas escolas públicas [22] (o que ultrapassava a população de três países: Chile, Paraguai e Uruguai), em um contexto em que se estimava (em 2000) o número de analfabetos com mais de 15 anos em 10,36 milhões de brasileiros. Nossas escolas públicas, entretanto, não são o lugar de formação das elites, exceto quando se chega à Universidade. Apenas conjunto muito restrito de instituições confessionais e empresas privadas diferenciam-se pela qualidade de ensino e pesquisa, ao lado das universidades públicas.

Porcentagem pequena da população atinge o ensino superior, ficando reservada à grande maioria dessa (pequena) porcentagem vagas em empresas (universidades?) com um compromisso tênue com o que chamamos de ensino, ainda que haja projetos um pouco mais tolerantes com as exigências da qualidade mínima ou média nesse mercado. Nossa excelência em escolas públicas contrasta com a distância em que nos encontramos dos demais níveis de ensino.

Mais do que isso, nos diversos níveis do ensino e também no universitário, as práticas acadêmicas [23] contrastam com a dimensão das necessidades concretas e oportunidades de ação que nos cercam, com a preparação de quadros para enfrentá-las. Muito embora saibamos bem traduzi-las em discursos que interpretam suas causas, a universidade frequentemente trata a sociedade e é tratada pela sociedade como uma realidade à parte. Também as necessidades, aviltadas diante de imensos desvios de dinheiro pela ganância de políticos e empresários, não são enfrentadas. Mas não por falta de dinheiro ou conhecimento, porque existem os recursos. Trata-se de exacerbação pela ganância desenfreada e pelo hedonismo.

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notas
1 Atualização parcial do texto base do memorial apresentado na Livre Docência em 2010, elaborado a partir de reelaboração crítica de texto de 2005.

22 “Os números obtidos no Censo Escolar de 2005 revelam a abrangência da cobertura deste levantamento. Foram contabilizados, aproximadamente, 56,5 milhões de matrículas e 207 mil estabelecimentos de ensino, distribuídos pelas diferentes etapas e modalidades da educação básica. Os números evidenciam também a magnitude da cobertura do atendimento escolar público, mostrando que 49 milhões de alunos da educação básica estudam em estabelecimentos públicos, sendo 25,3 milhões na rede municipal e 23,6 milhões na rede estadual.” INEP, 2006:32.

23 SANDEVILLE JR., Euler. Disciplina e Conhecimento. In Anais do Seminário Ensino de Arquitetura eUrbanismo. São Paulo: FAU USP, 2007a., SANDEVILLE JR., Euler. Fundamentos In: Seminário Ensino Arquitetura e Urbanismo São Paulo: FAUUSP, 2007b., SANDEVILLE JR., Euler. Participação e universidade. Universidade e participação In: Seminário Nacional Paisagem e Participação: Práticas no Espaço Livre Público, São Paulo, 2007c, SANDEVILLE JR., Euler. Paisagens vivenciadas, educação-pesquisa-aprendizado em ação. Anais do 10 ENEPEA – Encontro Nacional de Ensino de Paisagismo em Escolas de Arquitetura. Porto Alegre: PUCRS, 2010

 


como citar material desta página:
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 6. olhares que não enxergam os fossos“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse-parte-6-olhares-que-nao-enxergam-os-fossos/ acesso em DIA/MÊS/ANO.

[para citar este artigo conforme normas acadêmicas, copie e cole a referência acima (atualize dia, mês, ano da visita ao sítio)]


núcleo de estudos da paisagem
a natureza e o tempo (o mundo)
uma proposta de euler sandeville

 

 

 

 

 

 

a Terra é azul… que mundo é esse? parte 5. o lado sombrio

A TERRA AZUL [1] … QUE MUNDO É ESSE?
Parte 5. o lado sombrio
Euler Sandeville Jr.
versão inicial 2005/jan 2010/ 21/02/2016 a 05/03/2016. Última atualização: 05/03/2016

 


cite este artigo
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 5. o lado sombrio“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse-parte-5-o-lado-sombrio/ acesso em DIA/MÊS/ANO.


 

Alguns ícones dessa nova era, ao abrir-se do novo século, já são bastante sombrios. Sempre restaria a desculpa de que se referem a processos do passado, de um problema herdado do século anterior. Bem, isso só confirmaria duas coisas, primeiro a importância de nossas heranças e do que legaremos, segundo, que são ainda um fato bem presente.

Novos muros se constroem, como aquele que cerca Israel [21] ou a censura da internet chinesa amplamente noticiada no final da primeira década do século, ou ainda as milícias civis (que realidade humana triste essa) que procuram impedir, pela força, a entrada de imigrantes nos EUA, aliás, um pais que deve sua construção a imigrantes.

“As Nações Unidas estimam que aproximadamente 224.5 mil pessoas atravessaram o Mediterrâneo rumo à Europa. As ilhas gregas foram o ponto de chegada para quase 124.2 mil refugiados e migrantes, a Itália para 98.5 mil, Espanha para 1.7 mil e Malta recebeu 94 pessoas, segundo os dados oficiais destes países. (…) A Síria é o ponto de partida e nacionalidade de dois terços dos refugiados que conseguiram chegar à Grécia. Segue-se o Afeganistão (20%) e o Iraque (5%)”. Grécia é o primeiro destino dos refugiados que cruzam o Mediterrâneo [7 Agosto, 2015] Disponível em infogrecia.net/2015/08/grecia-e-o-primeiro-destino-dos-refugiados-que-cruzam-o-mediterraneo/ acesso em 15/02/2016

Essa realidade é muito próxima. Basta ver que imigrantes são hostilizados em nossas cidades, acontecendo aqui mesmo em São Paulo, no Parque Dom Pedro, violência sob pretexto de xenofobia contra imigrantes haitianos, vindos de onde o Brasil capitaneia uma força de paz da ONU. Ainda em 2015 seis haitianos foram baleados no Glicério, sendo que ouvi pessoalmente relato de Patrick Dieudanne dizendo que não receberam atendimento adequado em unidades de saúde e foram mandados para casa com balas e dor, antes de conseguirem ser atendidos no Hospital Tatuapé.

Por outro lado, essas e outras agruras e brutalidades são convertidas em cultura de massas, amplamente expostas aos nossos olhos pelos meios de circulação e produção de informação, uma experiência contínua de choque que se torna necessário. Mas necessário para quê? Para a inquietação de nossa consciência em sua acomodação. Esta frase deveria ter sua atenção, uma reflexão, não é óbvia, é dialética, ou deveria ser.

Se observarmos algumas fotos premiadas, veremos a repetição continuada de um drama contemporâneo, e algumas dessas fotos são de amplo conhecimento. Algumas, como as duas primeiras (figuras 13 e 14), chegam a ter uma temática muito semelhante ainda que com resolução fotográfica muito distinta. Não deixa de ser interessante o campo invertido de ambas.

A foto do ano foi para o australiano Warren Richardson, com uma imagem que mostra um bebê de família migrante sendo passado por baixo de uma cerca de arame farpado na fronteira entre Hungria e Sérvia, em agosto de 2015. A cena também levou o 1º lugar na categoria “Notícias Factuais”. Não menciona restrição de direito autoral ou de reprodução. Disponível em g1.globo.com/mundo/noticia/2016/02/world-press-photo-imagem-de-bebe-migrante-sob-cerca-e-eleita-foto-do-ano.html acesso em 04/03/2016.

Foto de Carol Guzy premiada com o Prêmio Pulitzer em 2000. Realizada em 03 de março de 1999, retrata o garoto Agim Shala, de 2 anos de idade, passado para sua família no campo de refugiados de Kosovo em Kukes, Albânia. Não menciona restrição de direito autoral ou de reprodução. Disponível em http://www.npr.org/sections/goatsandsoda/2015/09/04/437582231/an-image-of-a-child-can-change-the-way-we-see-the-world acesso em 04/03/2016

Essas duas fotos acima, entre outras, são antecedidas por uma outra foto de criança. Não raro associamos o futuro a uma criança, o que talvez as torne mais do que a denúncia ou registro de um presente perverso: podem ser o sinal subjetivo de um futuro em gestação.

A icônica e trágica imagem de uma menina vietnamita de 9 anos, Phan Thị Kim Phúc, fugindo das explosões de napalm em 08 de junho de 1972 (figura 15) rodou o mundo. A fotografia foi tirada por Huynh Cong Ut da agência Associated Press e recebeu o Prêmio Pulitzer de 1973. O sangue frio e indiferença ficam realçado pelo soldado pelo contraste corpóreo que expressa a dor das crianças e o controle, que podemos supor tenso e em contradição íntima, dos soldados.

Essa foto escandalizou o mundo, em um tempo em que as imagens do Vietnã circulavam quase em tempo real, expondo a injustiça da guerra com sua violência cruel e sem limites, reforçando movimentos pacifistas e por direitos humanos. Mas a imagem não deixa de ser transformada em ícone e torna-se midiática, para além do sofrimento da menina queimada, que é içada em sua tragédia a uma imprevisível celebridade quase pop, à própria revelia.

Phan Thị Kim Phúc, também conhecida como Kim Phúc (Trảng Bàng, Vietnã, 2 de abril de 1963), então com de 9 anos. Em 8 de junho de 1972, fugia durante bombardeios de Napalm pelos EUA na Guerra do Vietnã, na Rota 1 perto de Trang Bang, depois de um ataque aéreo contra suspeitos de esconderijos vietcongues. Fotógrafo Huynh Cong Ut (tinha 21 anos) da agência Associated Press e recebeu o World Press Photo de 1972 e o Pulitzer de Reportagem Fotográfica de 1973. Não menciona restrição de direito autoral ou de reprodução. Disponível em npr.org/sections/goatsandsoda/2015/09/04/437582231/an-image-of-a-child-can-change-the-way-we-see-the-world, acesso em 04/03/2016.

O que você lerá a seguir, deve fazê-lo com o mesmo nó na garganta que provavelmente sentiu ao ler sobre a bomba, se ao ler se viu, não no porta-aviões, mas na cidade que ainda havia pouco amanhecera:

Em 1972, os americanos lançaram uma bomba de napalm em meu povoado, no sul do Vietnã. Um fotógrafo, Nick Ut, tirou uma foto minha fugindo do fogo, a foto que hoje é tão famosa. Eu me lembro que tinha 9 anos, era apenas uma menina. Naquela noite, nós do povoado havíamos ouvido que os vietcongues estavam vindo e que eles queriam usar a vila como base. Então, quando já era dia, eles vieram e iniciaram os combates no povoado. Nós estávamos muito assustados. Eu me lembro que minha família decidiu procurar abrigo em um templo, porque nós acreditávamos que lá era um lugar sagrado. Nós acreditávamos que, se nos escondêssemos lá, estaríamos a salvo. Eu não cheguei a ver a explosão da bomba de napalm; só me lembro que, de repente, eu vi o fogo me cercando. De repente, minhas roupas todas pegaram fogo, e eu sentia as chamas queimando meu corpo, especialmente meu braço. Naquele momento, passou pela minha cabeça que eu ficaria feia por causa das queimaduras, que eu não ia mais ser uma criança como as outras. Eu estava apavorada, porque de repente não vi mais ninguém perto de mim, só fogo e fumaça. Eu estava chorando e, milagrosamente, ao correr meus pés não ficaram queimados. Só sei que eu comecei a correr, correr e correr. Meus pais não conseguiriam escapar do fogo, então eles decidiram voltar para o templo e continuar abrigados por lá. Minha tia e dois de meus primos morreram. Um deles tinha 3 anos e o outro só 9 meses, eram dois bebês. Então, eu atravessei o fogo.
Phan Thị Kim Phúc.
Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Phan_Th%E1%BB%8B_Kim_Ph%C3%BAc↑ acesso em 04/03/2016.

Os anos passaram-se e quem quer saber da menina coreana, hoje na casa dos 53 anos (em 2016). A foto permanece e chega mesmo a construir um conjunto de significados que se sucedem em nossas capas de jornal, fazendo posar juntos civis e militares em sua estranha diferença. Mais do que isso, passamos a reproduzir a imagem.

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notas
1 Atualização parcial do texto base do memorial apresentado na Livre Docência em 2010, elaborado a partir de reelaboração crítica de texto de 2005.

21 O muro de Berlim tinha “apenas” 155 km de extensão e 3,60 metros de altura, já “O Muro da Cisjordânia é uma muralha que separa Israel da Cisjordânia, realizada pelo governo israelense. Uma pequena parte do muro (cerca de 20%) coincide com a antiga Linha Verde; os 80% restantes situam-se em território cisjordaniano, onde adentra até 22 km, em alguns lugares, para incluir colonatos de Israel densamente povoados. Com extensão de 350 km, consiste numa rede de vedações com trincheiras rodeadas por uma área de exclusão média de 60 metros (90%) e por paredes de concreto de até 8 metros de altura (10%). Em certos lugares, como na região da cidade palestina de Qalqiliya, o muro chegaria à altura de oito metros. Em alguns pontos, a construção tem 45 metros de largura; em outros, pode chegar a 75 ou 100 metros. A muralha deve conter também dispositivos eletrônicos capazes de detectar infiltrações, fossas antitanques e pontos de observação e patrulha” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Muro_da_Cisjord%C3%A2nia↑, acesso em agosto de 2005).

 


como citar material desta página:
SANDEVILLE JR., Euler. “A Terra azul…Que mundo é esse? 5. o lado sombrio“. A Natureza e o Tempo (o Mundo), on line, São Paulo, 2016. Disponível em https://anaturezaeotempo.net.br/2018/09/09/a-terra-e-azul-que-mundo-e-esse-parte-5-o-lado-sombrio/ acesso em DIA/MÊS/ANO.

[para citar este artigo conforme normas acadêmicas, copie e cole a referência acima (atualize dia, mês, ano da visita ao sítio)]


núcleo de estudos da paisagem
a natureza e o tempo (o mundo)
uma proposta de euler sandeville